sábado, 26 de novembro de 2016

CAJAZEIRAS TERRA DA CULTURA?

José Antonio da Albuquerque



Além do título de cidade que ensinou a Paraíba a ler, Cajazeiras é tida e havida também como terra da cultura. Que cultura? Cajazeiras continua, e não se sabe até quando, vivendo do passado, depois de criar slogans, dentre eles, até sem fundamentação, a exemplo de “terra da cultura”.

A única lógica para este slogan encontraria razão nas encenações teatrais vividas pelos áureos tempos do TAC – Teatro Amador de Cajazeiras, tendo como principal líder Hildebrando Assis e posteriormente com Ica Pires e mais recentemente com Eliezer e seu grupo, além de Ubiratan Assis, dentre outros nomes.

As manifestações históricas da nossa cultura popular se perderam na poeira do tempo. Desconheço algum trabalho de pesquisa neste sentido, até mesmo entre as dezenas de trabalho realizadas pelos concluintes do Curso de História da UFCG, Campus de Cajazeiras.

O que construímos em termos de políticas culturais, no real sentido de uma política pública e da cultura como cidadania? Nunca despertamos para a nossa diversidade cultural e nunca conseguimos entender, do ponto de visto antropológico, que cultura é tudo que o ser humano elabora e produz, simbólica e materialmente falando.

Carnaval, Xamegão, Auto de Natal, Paixão de Cristo, Festival de Poesias, Encontro de Violeiros, Vaquejadas, Desfiles Cívicos com temas culturais e históricos, que são realizados anualmente, talvez não representem a essência da cultura de nosso povo.

Um dos grandes gargalos do “despertar” para a cultura é a questão do financiamento. Quem se debruça sobre o orçamento da prefeitura de Cajazeiras, nos últimos tempos, vai se deparar com uma triste e insólita realidade: os recursos são de uma pobreza franciscana. Como sustentar o slogan de “terra da cultura” quando as cifras destinadas a este setor são miseravelmente mixurucas.

Para se fazer parte da construção de um novo tempo, de um novo rumo necessário se faz ter pessoas com qualificação técnica e política e que se cerquem de outras com ideais e ideias para sedimentar e transformar com pujança os valores culturais em suas raízes mais profundas de nosso povo e de nossa gente. Existe um enorme campo a se pesquisar e explorar.
Não tenho informações se Cajazeiras já aderiu ao Sistema Nacional de Cultura, que antes tem que aderir ao Sistema Estadual. O mais belo programa de inclusão social do governo de Ricardo Coutinho é o PRIMA, todo ele financiado pelo Ministério da Cultura e é neste ministério que existe uma infinidade de alternativas de se buscar recursos para uma simples fanfarra até um complexo museu/espaço cultural.

Um dos sonhos de Edme Tavares, idealizado a partir do bicentenário de nascimento de Padre Rolim, em 1999, foi o de construir um grandioso espaço cultural em Cajazeiras com a finalidade de abrigar o museu, o arquivo público, o arquivo histórico, a Academia Cajazeirense de Letras, o Instituto Histórico, um auditório com mil lugares, um espaço para ensaio de dança e teatro e um para exposição de artes plásticas.

E o local? Houve quem sugerisse que deveria ficar às margens do Açude Grande, após o Leblon, com as características arquitetônicas iguais ao que foi construído em Campina Grande, em homenagem a Jackson do Pandeiro, dentro do Açude Velho.

Há mais de vinte anos um doutorando, em Antropologia Cultural, da Universidade Federal de Pernambuco, passou um longo período em Cajazeiras fazendo uma pesquisa sobre as nossas bodegas, como tradição ainda hoje bem viva no nosso meio e outra oriunda dos Estados Unidos, sobre Conflito Religioso e Poder Político e mais recentemente sobre engenhos de rapadura. Poderia citar dezenas de exemplos de pesquisadores, que chegam a Cajazeiras, mas não possuímos um Arquivo Público e de longe o Histórico.

Cajazeiras, muito embora possua uma riqueza histórica imensurável e maior ainda sob aspecto cultural, suas autoridades precisam despertar para estes setores, iniciando por uma política pública importantíssima: a de colocar na Secretaria de Cultura pessoas altamente qualificadas e de grande conhecimento antropológico e sociológico de nossa cidade. Cajazeiras merece!




Texto publicado no Jornal Gazeta do Alto Piranhasedição 938ª, dia 25/11/2016  

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"... SOBRE A FOTO DE ANTONIO TOMAZ."

O que se destacou nas páginas do facebook dos cajazeirenses essa semana, foi, finalmente, o aparecimento da tão esperada foto do aviador Antônio Tomaz, divulgada pelo historiador José Antonio de Albuquerque, em sua página no facebook, já que quase todas as fotos de personagens, personalidades, políticos, cajazeirenses e cajazeirados, haviam saído do baú e ganharam as páginas da internet nos últimos anos.

Digo assim porque desde 2014, vinha eu, vasculhando e revirando a internet, na ânsia de encontrar imagens do lendário homem dos céus sertanejo, que pudesse ilustrar um mutirão nas redes sociais, pelo reconhecimento da importância que foi esse piloto, para a história dessa atividade na cidade, que estava esquecido, e que pudesse contribuir na campanha feita nos últimos meses pela sociedade cajazeirense, para desatamento do nó que envolvia a questão do aeroporto de Cajazeiras.

Adiante ainda que em março neste mesmo ano, 2014, em uma postagem para o blog Cajazeiras de Amor, cujo título foi “Eles, a frente do tempo. “, destaquei, talvez, as primeiras informações na internet, sobre o senhor Antonio Tomaz.

A foto publicada pelo historiador José Antonio, provocou o surgimento de uma série de comentários de pessoas que se dizia ter conhecido Antonio Tomaz; e relatos de outras que conviveram e viveram situações ao lado do aviador de Cajazeiras e seu aviãozinho, em seus voos pelos arredores de Cajazeiras. Uma dessas situações que achei interessante, foi a vivida pelo pai de Bosco Marcial, seu Zé Cardoso, contada por Bosco, em uma postagem no seu facebook. Veja o que Bosco postou:  



O Voo do Fênix Nordestino
Bosco Maciel    

“.... Recebi esta foto de José Antônio Albuquerque – Cajazeiras/PB. Trata-se de Antonio Tomaz, (in memoriam). Morreu em acidente aéreo com seu teco-teco em Catolé do Rocha/PB. O precursor da aviação em Cajazeiras-PB, a cidade que ensinou a Paraíba a ler. Na década de 1950, esse senhor tinha um teco-teco (foto) que levantava e pousava em um pequeno aeroporto da Cidade. Papai, Zé Cardoso, torneiro mecânico, gostava de contar uma história em que ele, Antonio Tomaz e o Teco-Teco, passaram por um perigo danado. Foi assim: Papai tinha que ir consertar um motor em Açu/RN (acho que era o ano de 1960). E, contratou Antonio Tomaz para fazer a viagem. Levantaram voo em Cajazeiras/PB com destino à cidade rio-grandense. Depois de algumas horas de viagem papai percebeu, em meio à preocupação do Aviador, que estavam sobrevoando o mar há algum tempo. E, papai perguntou a Antonio Tomaz: - Antonio, nós estamos perdidos, pois faz tempo que só vejo água? E ele respondeu olhando o mapa entre as mãos trêmulas: - Sim, Zé Cardoso. E o pior que não acho Açu aqui no mapa e o combustível está pra acabar. Papai ficou desesperado achando que iam morrer no mar e já começou a olhar o mapa junto com o aviador, enquanto rezava pra tudo que é Santo. Foi quando Antonio Tomaz deu um grito: - Achei! Olhe Açu no meio desse rasgadinho. Em seguida fez umas manobras como estivesse voltando. Depois de uns 10 minutos, já avistavam a cidade. Aí, foi só descer com o avião na pista e respirarem aliviados para em seguida procurarem uma privada para darem vazão ao susto que passaram. Hoje, de forma justa, este pioneiro que adorava voar, já faz parte da memória de grandes personalidades da história Cajazeirense. ”


Bosco Maciel 
é cajazeirense radicado em Guarulho/SP, poeta, folclorista, 
cantador, fundador da Casa dos Cordéis, membro efetivo da 
AGL - Academia Guarulhense de Letras.




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

PROJETO VAN FILOSOFIA CHEGA A CAJAZEIRAS




O projeto Van Filosofia, é mais uma das iniciativas do produtor e ativista cultural Gerard Miranda e seu coletivo cultural: o Coletivo CIC, que objetiva espalhar cultura de forma dinâmica e acessível a partir de diversas formas de interação com o público. 

Através de um carro adaptado para apresentações de cultura, de hip-hop e multimídia, o projeto Van Filosofia já passou por sete estados, e pretende seguir pelas estradas do Brasil e do mundo. 

Foram viagens que levaram a van ao Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte, além de ações por João Pessoa como na Aldeia SESC 2016, em que a van trouxe: palestra, roda de break, intervenções de graffiti, apresentações de MCs e DJs, exibição do curta Parahyba Hip Hop, distribuição de livros, CDs e DVDs produzidos pelo Coletivo CIC, entre outras manifestações culturais. 

Essa metodologia do projeto já foi testada por meio de um outro projeto de Gerard Coletivo CIC: o Rally Circo Social, que rodou pelas estradas do Brasil durante 15 anos, contou com o apoio de diversas entidades e ativistas culturais, e teve sua história contada até em livro. 

A van é equipada com palco móvel, projeção, tv, equipamento de som, biblioteca, discoteca e material cultural para distribuição, como livros, revistas, cds, etc. Essa estrutura possibilita que o projeto acesse e proporcione apresentações, ações e intervenções artísticas para os mais diversos públicos. 

Esse projeto se baseia no conceito da redução de danos ao planeta, onde a principal estratégia é divulgar o entendimento que menos é mais: menos uso, consumo, desperdício, etc. significam mais recursos, preservação e desenvolvimento. 

Mais que uma ação cultural, esse projeto é uma ação social que faz a diferença na vida de todos que alcança. Para conhecer mais, acesse: www.facebook.com/gerardcoletivocic

Cronograma correto das datas:
30/11/2016    Cachoeira dos Índios
01/12/2016    São José de Piranhas
02/12/2016    São João do Rio do Peixe
03/12/2016    Cajazeiras



EXÍLIO, SOLIDÃO E SAUDADE

José Antonio de Albuquerque

Por do sol em Cajazeiras, foto: Cavalcante fotógrafo

Tenho recebido muitas mensagens de cajazeirenses que sobre as asas de carcarás voaram para outras encostas e colinas, deixando pra trás as saudades e as lembranças tão belas e caras de grande parte de suas vidas, vividas nas ruas, vielas, becos, botecos, praças e esquinas de sua Cajazeiras.

Todas as mensagens externam lamentos e o choro da tão bela e distante terra querida. Lindas e verdadeiras canções de exílio.

Fico às vezes me perguntando se acontecem os mesmos sentimentos, os mesmos lamentos, as mesmas tristezas e as imensas saudades com os filhos de outras cidades que também se “exilaram”, a exemplo de inúmeros cajazeirenses, que fazem questão de manifestar e demonstrar que sempre está acesa em seus peitos a memória imorredoura da doce fragrância do solo natal.

Que mistérios são estes que esta cidade guarda entre seus muros que tanto encantam os seus filhos?

Porque tantos choram a ausência da terra querida?

Porque tantos rasgam as fronteiras do tempo com seus pensamentos e vem sentir a brisa suave do entardecer na parede do Açude Grande?

Porque tantos se lamentam, tristemente, por não poder vir assistir aos desfiles do dia da cidade?

Porque tantos pedem para escrevermos sobre o tempo que passou para saudar, reverenciar, resguardar e salvar a nossa memória histórica?

Todas estas noticias que chegam aos conterrâneos seria uma forma de reviver e sobreviver deste exílio in(voluntário)?

Oh, minha Pátria tão bela e perdida. Oh, minha terra querida, vá em pensamentos, sobre as asas cinzentas dos nossos gaviões de tabuleiros e diz a todos os exilados que continuem a chorar a sua ausência e diga-lhes que tenham força para suportar o sofrimento e que nunca bata em seu peito o sentimento da conformação.

O degredo é um contínuo sofrimento, é um renunciar ao ontem para poder viver a esperança da volta, que se transforma em uma grande festa e isto Cajazeiras tem vivido e vivenciado nos últimos tempos, com muito amor, nos bailes do reencontro.

Dentre os “exilados”, radicado no Rio de Janeiro, existiu um que externava  aos muitos amigos, que depois de sua morte, seu corpo fosse cremado e suas cinzas jogadas do alto do Cristo Redentor, aos pés da cidade que lhe serviu de berço. E os eu desejo foi concretizado.  Esta demonstração de amor a sua cidade me faz lembrar um cantador de versos da feira de Cajazeiras, que costumava recitar a Canção do Exílio de Gonçalves Dias: “por mais terra que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que antes volte lá”.

Ao vasculhar as minhas anotações reli os meus delírios de exilado em terras pernambucanas, nos idos da década de 60, indagava:

Existe algo mais sentimental e belo que beijar nos olhos? Onde ficam os olhos de minha amada cidade? Nos altares de nossas igrejas? Nas alamedas dos nossos cemitérios? Nas choupanas da periferia? Nos encarcerados? Nos leitos dos nossos hospitais? Nas crianças abandonadas? Nas famílias que padecem com filhos dominados pelas drogas? Nos lupanares? Nas nossas praças?

Caro amigo exilado, ao retornar a sua terra, beije-a nos olhos, não somente nos olhos que irradiam alegria, mas nos que derramam lágrimas de dor e você vai sentir que muitas delas são amargas e precisam de seu afago.




fonte: coisa de cajazeiras 

domingo, 20 de novembro de 2016

O perfil do Biógrafo do Padre Rolim, nesse texto do jornalista Luiz Pinto, publicado pelo jornal A União, em 1970.


Padre Heliodoro Pires
Luiz Pinto

Já o conheci pessoalmente o velho intelectualmente, puis-me em contato com ele, há mais de 40 anos, através do seu pequeno-grande livro - “Padre Mestre Rolim”. Esse trabalho pouco lido e totalmente esgotado, pode ser tido como dos melhores estudos já lançados no Nordeste, não apenas de caráter biográfico. Senão pela feição de multiplicidade de aspectos. Era um grande latinista, vernaculista e um primoroso estilista. Vim conhecê-lo no Rio. Demonstrou já conhecer alguns dos meus livros. Era pároco da Igreja São João Batista de Botafogo.
Aqui, no Sul, escreveu vários livros sérios de grande erudição, destacando se um sobre o Aleijadinho e sua obra, “livro que elevou seu nível cultural nos meios intelectuais do Brasil.
Sempre o vi na rua S. José, nos Sebos ou na Sobreloja do Edifício Avenida Central, na mesma faina de comprar livros usados. Corcunda, pelo peso dos anos, Heliodoro, era magro e de altura média. Falava brando, mas com muita fluência, muita loquacidade. Conhecia homens e coisas da Paraíba como se lá vivesse. E a agudeza do seu espirito critico era quase impiedoso, Latinista, conhecendo bem as raízes e gêneses dos vocábulos, a propriedade do emprego, falar com ele era ter cuidado de escorregar nos solecismos.
Eu, porém, consegui fazer grandes camaradagem com o Padre Heliodoro. Então, ao encontrá-lo, o que era constante, procurava provoca-lo sobre os problemas da Eucaristia e o Celibato dos padres. Ele levava a brincadeira a sério e desmanchava-me em sabedoria. Pedi-lhe um exemplar do seu livro esgotado “Padre Metre Rolim”. Prometeu-me várias vezes, mas nunca me deu.
Filho de Cajazeiras, de tradicional família sertaneja, o grande mundo nunca o fez esquecer seu pequeno mundo. Parecia um pároco de aldeia.
Uma dessas manhã, quando abro o primeiro jornal dos que leio logo cedo, depara-se já o convite à Missa. Confesso que me abalei na minha cadeira de leitura. Fechei os olhos por um minuto pedindo a Deus o repouso eterno a alma daquele bondoso velhinho, daquele justo homem daquele culto e sensível nordestino.
Padre Heliodoro Pires, que fazia questão de viver anônimo, era um dos maiores valores culturais do Brasil e um santo padre.





fonte: Jornal A União, 09/04/1970. Página 4.

sábado, 19 de novembro de 2016

CANTATA PARA O AGORA


Em março de 1989, o professor, o poeta, o teatrólogo, o compositor, o artista plástico e o escritor cajazeirense Irismar Di Lyra, lançava em noite de autógrafo no auditório da Caixa Econômica Cabo Branco, em João Pessoa, o seu quinto livro com título: “Cantata para o Agora”. Para marcar a data, ele deu a advogada Nadja Palitot, a seguinte entrevista que foi publicada no Jornal A União do dia 09 de março de 89, página 11- Serviço. Saiba, o que pensava o escritor na época, nessa conversa com Nadja Paliyot, há 27 anos atrás.

O Questionamento da existência numa Cantata para o Agora.
Nadja Palitot, 

Um escritor que define a literatura como sendo a ciência catalizadora do pensamento e que, portanto, pensa como escreve, cria o que sente. Assim é Irismar Di Lyra, um paraibano de Cajazeiras, que estará lançando, a partir das 20h30 de amanhã, o livro Cantata para o Agora, no hall da Caixa Econômica Federal, Agência Cabo Branco. Doublê de escritor e bancário, Irismar já   lançou outros quatros trabalhos, sendo o mais recente A Corte dos Raros uma reunião de sus poesia, que foi editado no ano passado. Nesta entrevista à advogada Nadja Palitot, realizada exclusivamente para A UNIÃO, ele fala do seu trabalho e seu processo de criação e revela, ainda, seu maior sonho: “receber o Nobel de Literatura, afinal a gente sempre quer ser o melhor e maior em tudo que faz”. A seguir, a entrevista, na integra.

Quem é Irismar?
Hoje sou o escritor, o que se questiona sobre si mesmo e não especificamente sobre minha obra, que é o ponto nevrálgico dessa conversação.
Irismar, o escritor, o que ele pensa?
Ora, questiono a existência, e isso está em Cantata para o Agora, que é o ponto de referência entre o escritor e o público.
Fale sobre “Cantata para o agora”.
É uma complexidade de coisa abordadas sobre ângulos diversos, mas sintetizados em quatro cantos de natureza lírica, reunidos num só título, onde questiono a busca incessante do Eu; o processo de tessitura do que escrevo; o pragmatismo da vida e as utopias do homem, sem as quais a via se tornaria por demais insípida.
Como você sente o “Cantata para o Agora”?
Ele é um instrumento ideológico do qual me sirvo para fazer do que penso e fazer denunciar.
Você considera sua obra uma visão egoística?
Não, o que passo ou aquilo que tanto passar é o que absorvo e assimilo sobre a temática questionada: a vida. Pode ser que em Cantata para o Agora, eu não tenha conseguido me responder sobre o que me questiono tanto. Talvez seja necessário um outro livro para que esse meu pensamento venha se completar, fechando este ciclo.
Você se considera um escritor popular?
Eu trabalho com metáforas e essa forma de linguagem é bastante implícita, não sei se isso seria, para o público, um escritor popular.
Então, Irismar, para quem você escreve?
Infelizmente, para uma minoria “pensante”, que pode comprar e ler o que a gente escreve. A grande maioria, por questões de poder aquisitivo, não tem acesso a literatura, o que seria uma problemática para os governantes, que pouco estão ligando para isso: afinal, interesse ao poder manter este estado de alienação vigente, pois ele fomenta o continuísmo destruidor que assola o país desde a Revolução de 64.
Você se sente uma pessoa solitário?
Eu me sinto solitário às vezes que penso sobre isso. Tenho a toalha de banho, os livros, os discos, a máquina de escrever, o que me dizem que estou completamente só.
Que tipo de relação existe entre Irismar e o eu ele escreve?
Para ser sincero, é quase uma relação sexual. O ato de escrever, principalmente o ato de criar, passar para o papel e dividir com ele o que se sente, exige reciprocidade. As ideias são como amantes: seduzem. E, ao passa-las para o papel e dividir com ele o que se sente profundamente, acontece uma relação muito profunda, sexual. É um ato a dois, no qual se dá e se recebe, dando vazão ao libido.
Como você concilia o escritor e o bancário?
Eu não concilio, eles acordam juntos, talvez se tolerem, pois precisam um do outro. Ambos vivem do que o outro faz: nem ou totalmente bancário, nem completamente escritor. O bancário é uma necessidade prática e substancial e o escritor, é uma necessidade que tenho como homem inquieto que sou, de sentir, fugir, sonhar, e do qual todos nós precisamos. Eu não sei bem como conseguiria viver sem o escritor. Mas o escritor, por si só, por uma fortaleza, seria capaz de sobreviver sozinha.
E quais são os seus sonhos?
Ser o maior e melhor escritor do mundo. Todos nós queremos ser o maior e o melhor naquilo que fazemos, não é verdade? Espero, um dia se o Nobel da Literatura.
O que é literatura para você?
Ela é a ciência catalizadora do pensamento: penso como escrevo, crio o que sinto.



fonte: Jornal A União

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As duas torres de Cajazeiras




Ainda há em Cajazeiras, vestígios de antigas construções, que vem resistindo ao tempo, em meios aos escombros de muitas que foram esquecidas ou modificadas para satisfazer os caprichos da modernidade. Um exemplo dessa pertinácia são as duas torres construídas para abrigar as caixas d’água para a indústria do Major Galdino Pires Ferreira e para abastecer o que seria o Hospital do filho do Coronal Zuca Peba, ambas consideradas pelo historiador José Antônio de Albuquerque, como duas relíquias da arquitetura cajazeirense.

A primeira foi construída pelo Major Galdino Pires, em um terreno vizinho a sua residência, com finalidade de levar água até a sua fábrica que situava na Praça José Marques. A segunda, que está cravada nos fundos do antigo Hotel Oriente, foi edificada pelo Coronel Peba, para abastecer o que seria um hospital para quando o seu filho Zuca Peba, voltasse com um diploma de médico do Rio de Janeiro, o colocasse em funcionamento. As duas torres apresentam traços da arquitetura românica, pelas características de solidez pesada de suas estruturas e são consideradas na visão do historiador como duas pérolas que simbolizam o poder econômico que os seus construtores eram detentores.