domingo, 11 de setembro de 2011

Cristiano Cartaxo Rolim


Cristiano Cartaxo Rolim nasceu em Cajazeiras, Paraíba, no dia 6 de agosto de 1887, como consta do assentamento de seu batizado, entretanto, o seu aniversário vem sendo comemorado no “dia 7” do referido mês, por decisão sua, isso por que o poeta tinha curiosa preferência por este número.

Era filho do boticário Higino Gonçalves Sobreira Rolim e de Ana Antônia do Couto Cartaxo (Mãe Nanzinha), descende das famílias fundadoras de Cajazeiras - Albuquerques, Rolins e Cartaxos. Iniciou seus primeiros estudos em sua própria terra natal.  Mais tarde deu continuidade, cursando sucessivamente as Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, em busca de um diploma de farmacêutico, conquistando-o, afinal, em 1913.

Regressando a cidade de Cajazeiras, dedicou-se às atividades de sua profissão, dirigindo, por muitos anos, a tradicional farmácia que herdou do pai.  Sentiu o gosto de ter participado da vida pública cajazeirense como Vereador, Vice-Prefeito e Prefeito Municipal.

Nome dos mais expressivos dos meios intelectuais da Paraíba, não quis, por exagerada modéstia, ocupar uma das cadeiras da Academia Paraibana de Letras, quando convidado pelo saudoso beletrista Cônego Matias Freire.

A sua vasta e excelente produção poética andavam esparsas pelos jornais e revistas da Paraíba e do Ceará até que seu genro, Mozart Soriano Aderaldo, lembrou-se de reuni-la ao ensejo das comemorações de seus 70 anos. Posteriormente, após sua morte, seus familiares publicaram um 2º livro: A Musa Quase Toda. O poeta faleceu de parada cardíaca no dia 29 de agosto de 1975, aos 88, totalmente lúcido. Cristiano Cartaxo respirava poesia e seus poemas recendiam a amor.

casa onde residiu o poeta Cristiano Cartaxo
o casal: Dona Isabel (esposa) e Cristiano Cartaxo.
   Poesias de Cristiano Cartaxo 
O Amor aos Seus
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Você
Para sua esposa, Isabel.
                 
Hoje estou com saudade de você,
Isabel, muito mais que de costume.
Saudade que traduz e que resume
todo esse amor que sinto por você.

Ninguém sabe melhor do que você
quanto esse enlevo de minh’alma assume
a expressão inefável de um perfume
toda vez que estou longe de você.

A distância é fator por excelência
a ativar, avivar-me a consciência
de que não preso a vida sem você,

donde me vem a convicção mais forte
de que só, intrusa e má, a morte
poderá separar-me de você.

Conselhos
                 
A vida é um manso lago azul 
Júlio Salusse. A meus filhos.

Que Deus proteja sempre o nosso lar.
Nunca permita se lhe altere o aspecto
E assim possamos, sob o mesmo tecto,
à flor das águas mansas velejar.

Que não venha dos fados, insurrecto,
o vento a paz do lago perturbar.
Envolva-o sempre esse clarão de luar,
esse ar  a’um tempo alegre e circunspecto.

Se, em cumprimento à lei divina e eterna,
um dos cisnes houver por bem deixar
as doces águas da mansão paterna,

floresça o amor no mesmo clima e estilo,
com o mesmo encanto antigo e singular,
na paisagem de um  lago azul, tranqüilo.

Conselhos 2

Vem cá, meu filho, escuta: não te iludas
com as futilidades deste mundo.
Dá-me o prazer de ver que tu te escudas
no amor de Deus, altíssimo e profundo.

Procura os bons. Foge ao contacto imundo
dos  maus. Evita os ósculos dos judas:
a beleza e a verdade estão no fundo
das almas simples, das grandezas mudas.

Cuidado com a miragem dos caminhos!
Evita aqueles que ostentarem flores
e segue aqueles em que houver espinhos.

Fecha os olhos aos pérfidos fulgores
e os ouvidos aos falsos burburinhos:
Deus te acompanhará por onde fores.

O Amor a Cajazeiras
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Cajazeiras
Spondias Lutea

Majestosa expressão da flora sertaneja, 
formosa afirmação da vida vegetal, 
olhos não ponho em ti que, em frêmitos, não veja 
fulgir a tradição do meu torrão natal.

E - transpondo os umbrais de solitária igreja, 
ante o altar genuflexo o crente fica - tal 
me quedo ante o teu vulto, a alma a sentir que voeja 
por sobre a romaria em ronda festival.

Bendito o afã com que vão as tuas raízes 
seiva buscar no chão! Benditos os matizes 
da folhagem, de verde aberto a verde gázeo,

e a força vegetal que os teus frutos adoira! 
Frutos!. Jalde colar de bagas de topázio 
que a luz do luar prateia e a luz do sol redoira

Cajazeiras - Cidade

Contra um projeto que queria mudar o nome
da cidade, para o indígena “taperibá”
 
Minha terra natal é Cajazeiras!
Demora em suave depressão de vale.
Entre as irmãs talvez nenhuma a iguale
no recato do porte e das maneiras.

Dizer de suas graças feiticeiras, 
nem é preciso que meu verso fale;
basta que em coro uníssono o propale
a multidão das aves cantadeiras.

O seu nome é um presente do passado.
Vem do berço. Que espírito profano
não lhe arranque o topônimo sagrado,

para que eu possa, em loas verdadeiras,
sempre dizer, envaidecido e ufano:
Minha terra natal é Cajazeiras!

O Amor ao Sertão e ao Nordeste
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Orgulho Caboclo

Tenho orgulho de haver nascido no sertão,
na terra em que o vaqueiro, intrépido, se estriba
no dorso de um cavalo, e de um soco derriba
no coração da mata o touro barbatão.

Tenho orgulho de ser filho da Paraíba,
irmão do cearense indômito, que não
perdeu o amor à terra e só daqui arriba,
quando na seca os céus lhe negam água e pão.

Orgulho deste sol, cujos beijos ardentes
dão à terra molhada e igualmente às sementes
o mágico poder de uma ressurreição.

Dos que fecham com ferro e com cimento e terra
as gargantas do rio, os boqueirões de serra,
conquistando destarte a nossa redenção!

                                       Nuvem

Gotas de suor da terra evaporadas
ao calor, e ao soprar das ventanias,
amarguras dos campos condensadas
rumo dos céus, lá nas alturas frias!
Para onde vais, fugindo assim às pressas,
tu que és filha daqui? Não te comove
o aspecto bruto, o horror medonho dessas
regiões em que há seis meses que não chove?
Peregrina, mimosa retirante,
nômade filha do sertão agreste,
pois é fado viver assim errante
quem nasceu nessas bandas do Nordeste?
Reclamam-te esses campos inditosos
a umidade fecunda dos teus beijos
na saudade dos rústicos festejos:
águas de enchentes, roças e outros gozos.
Nuvem - gases do vale, véus da serra -
para onde vais, fugindo assim em bando?
Filha rebelde e pródiga da terra,
quando é que um dia hás de voltar chorando?
O chão, o céu, os pássaros em coro,
rios, açudes, tudo mais enfim,
ressuscita à harmonia do teu choro.
O próprio sol se ameiga ao ver-te assim.
E cala o filho do sertão adusto,
que desde o berço até à campa sofre
a dor que lhe arranquei do peito angusto
e aqui fica gemendo nessa estrofe:
Ai! Para que plantar? Só para a mágoa
de assistir o espetáculo tremendo
de o que plantei aos poucos ir morrendo
à fartura de sol e à mingua d'água?
Nuvem, piedade! Ao menos com o manto
de tuas sombras cobre os sertões nus
para que o sol não queime a terra tanto
e o homem não viva amaldiçoando a luz!...

O Amor a Vida
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Pôr do Sol

Que queres tu, viajor, olhando para trás? 
O que vês é a distância, é a estrada percorrida, 
é o pó das ilusões da vida já vivida, 
é o tempo que passou e que não volta mais.

Porventura não vês, após tamanha lida, 
que tudo neste mundo é efêmero e falaz? 
Inexoravelmente, um dia, zás, a morte 
sorrateira, sutil, corta o fio da vida.

Que queres mais, viajor, ó espírito enfermo? 
Não vês que longe vais, quão perto estás do termo? 
De que valem as cãs que te ornam a cabeça?

Desfita,  pois,  o olhar dos longes do horizonte, 
volta as costas ao mundo, eleva a Deus a fronte, 
antes que o sol de ponha, antes que a noite desça.

Ascensão

Atravessaste o vale, a planície florida, 
absorto na visão dos encantos da estrada. 
Eis-te agora ao sopé da montanha da vida 
que irás subir a fim de alcançar a chapada.

Coragem, moço! Eu sei que é íngreme a subida. 
Que importa?  Vencerás, passada por passada, 
para a glória de o sol beijar-te a fronte erguida. 
- E depois? - É a descida, é a morte, é a volta ao nada...

Mas, tanto que atingi o cimo da montanha, 
a fronte em suor, os pés em sangue, as mãos em brasa, 
senti que mergulhara em claridade estranha...

e a Verdade esplendeu em toda a intensidade: 
é uma ascensão a vida! Eu necessito de asa 
para me erguer mais alto em rumo à Eternidade!


No cimo da Montanha

Até que enfim cheguei ao cimo da montanha
após uma jornada extensa e fatigante.
Passeio o olhar em torno e, pronto, o olhar apanha
tudo que a vida tem de belo e contrastante.

Possa ao menos fixar alguns dos instantâneos
que mais funda impressão me causam; os ouvidos
fechados  ao rumor de vozes e ruídos
onde há ranger de dentes e estalejar de crânios.

Embaixo avisto o vale imenso, entrecortado
em várias direções de rios e de estradas.
Crianças a brincar imitando o bailado
das borboletas, indo e vindo em revoadas.

Ônibus, caminhões, caminhonetes e autos,
de cidade em cidade, a correr, a voar.
E,  sem matar ninguém,  nem pedestres incautos,
carros de bois gemendo ao sol, cantando ao luar.

Aqui, ali, além, em meio das encostas,
mulheres, colo e mãos, tendo jóias e anéis,
passam cantando e rindo, enquanto em mãos postas
outras sobem, sentindo embora em sangue os pés.

Entre umas e outras vejo o número daquelas
que, no desabrochar primaveril da idade,
o mundo as seduziu, porque moças e belas,
e  arrependidas, hoje, inclinam-se à verdade.

Homens a pelejar com paciência e denodo
no afã de conquistar o pão de cada dia;
outros, sem um ideal, espojam-se no lodo,
lançam-se a tudo o mais no turbilhão da orgia.

Alguém, que pouco faz passeava na avenida,
sobe um arranha-céu.. e do ponto mais alto
arremessa-se ao chão e morre sobre o asfalto
tão só porque não deu elevação à vida.

II

Alongo mais o olhar e avisto o campo santo, 
leito derradeiro em que a morte nos deita... 
e em que a matéria sofre aos poucos, tanto e tanto, 
as decomposições a que ela está sujeita. 
  
Ali repousarão um dia os meus destroços. 
Que importa que, voraz, a multidão dos vermes 
passeie sobre o meu corpo, os meus membros inermes, 
sugue-me o sangue, coma-me a carne e roa-me os ossos! 
                    
Ensinaram-me a ciência e a fé os dogmas seus: 
Se o corpo está sujeito à ação da gravidade, 
o espírito obedece às leis da eternidade: 
aquele volve à terra, este se eleva a Deus! 
                    
Por isso é que daqui, do cimo da montanha, 
em que estou mais perto do céu vasto e profundo, 
sinto-me bem, pesar da dor que me acompanha, 
em vendo tão pequeno e tão vazio o mundo. 
                    
Homens, que aí viveis como vermes de rastros. 
E vos vangloriais - cegos que sois de ateus - 
erguei o olhar aos céus, bebei a luz dos astros, 
acendei vossa fé nas lâmpadas de Deus. 
                    
Para se conseguir excelência tamanha 
basta amar, basta amar e sofrer, só e só, 
no fervor de ascender, cada vez mais, do pó. 
Como é consolador  o cimo da montanha! 
                    
E eu amei.. e eu sofri... Eu tenho os pés feridos 
nas sarças do caminho. Eu guardo dentro d’alma 
a ressonância, os ais de todos os gemidos, 
as preces dos que ouvi pedindo amor e calma. 
   
Graças vos dou, meu Deus, graças vos dou, Senhor, 
por sentir  que me ergui dos abismos da treva, 
por sentir mais intensa essa luz que me eleva, 
suave irradiação do vosso imenso amor.


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