sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Entrevista com o Padre Raymundo Rolim


Uma entrevista do Padre Raymundo Rolim, publicado no blog: noticiasdecajazeiras-claudiomar.blogspot.com, revela fatos e detalhes sobre as origens da família Rolim e da formação da cidade de Cajazeiras. Vale apenas ler.

Bruno de Lima: quais foram às origens do Padre Rolim?

Padre Raymundo Rolim: o padre Inácio de Sousa Rolim era filho do casal Vital de Sousa Rolim e Francisca Ana de Albuquerque, essa era natural do Rio Grande do Norte e o Vital de Sousa Rolim era de Pernambucano, vieram do Ceará para a Paraíba. Chegando a Cajazeiras, o casal foi residir primeiro no sítio Serra Vermelha, depois no sítio Serrote, onde justamente nasceu o terceiro filho, o Inácio de Sousa Rolim. Então observa-se o fundamento da família Rolim na cidade e na região de Cajazeiras.

Bruno de Lima: qual era a opinião geral do povo, seus contemporâneos, sobre a vida do Padre Rolim?

Padre Raymundo Rolim: a opinião geral das pessoas, conterrâneos e contemporâneos de Inácio de Sousa Rolim atestavam que desde a menor idade, da infância e da juventude, já era um jovem sensato, equilibrado, simples e como diz um termo adequado, morigerado, quer dizer, de bons costumes, de bom exemplo. Dessa maneira fez os primeiros estudos em Cajazeiras, em seguida foi estudar no Crato, no Estado do Ceará, onde também aparece um testemunho muito bonito do vigário do Crato, o Padre Saldanha, depois também do vigário da cidade de Sousa, o Padre Costa onde o Padre Rolim também estudou durante um ano e em todas essas etapas de seus estudos, de sua educação, está escrito nos livros o testemunho do povo, que se tratava de um jovem de bom comportamento; ótimas informações eram dadas sempre a respeito dele.  No ano de 1822 (ele nasceu em 1800) com 22 anos de idade ele ingressou no seminário de Olinda, no Pernambuco, já para fazer os últimos estudos de Teologia e Filosofia. Apenas estudou três anos e deu conta de todos os tratados de Teologia e Filosofia, sendo ordenado padre em 1925. Depois de ordenado padre, ainda permaneceu lá no seminário de Olinda, onde exerceu alguns cargos de confiança da reitoria e do bispo de Olinda e em seguida ele ficou assumindo, após a sua ordenação, a reitoria do seminário de Olinda.

Bruno de Lima: qual e como foi a sua caminhada vocacional? E sua ordenação?

Padre Raymundo Rolim: A sua ordenação foi exatamente a sua caminhada vocacional como eu já falei, tanto dos seus estudos como de seus testemunhos de vida cristã, eram admirados por todos os co-legas e por toda a diretoria do seminário de Olinda. Existe até uma carta comendatícia, quer dizer de recomendação dos seus comportamentos, do bispo de Olinda, Dom Tomás Noronha, que, lida, todo mundo entende, como se tratava de um jovem cheio de ideais e de virtudes que deram lugar a sua ordenação que foi feita exatamente dentro de seis meses quando recebeu todas as ordens sacras. Desde as ordens menores e as três ordens maiores, subdiaconato, diaconato e o presbiterato, todos foram dados dentro de um mês, pela a sua indiscutível competência. Não houve período de experiência, para que alguém denunciasse qualquer coisa a respeito dele como é a regra, porque todas as informações que vinham por onde ele passou, eram ótimas. Eram de grandes virtudes e por isso mesmo a sua caminhada vocacional foi realmente coroada de boas informações a respeito de um homem de Deus, de muitas virtudes.

Bruno de Lima: qual sua missão de padre?

Padre Raymundo Rolim: depois de ordenado ele permaneceu em Olinda como diretor e professor do seminário, até 1829, quando aceitando, por obediência eclesiástica, o pedido do bispo de Olinda e o bispo de três Estados: o Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Pernambuco. Mas o seu amor pelo sertão, sempre aquela vontade de voltar ao seu rincão natal, aliado à carência de padres dedicados na região, tudo isto o motivou a se  dedicar também a maior parte do seu tempo à educação religiosa dos jovens, mas, sobre tudo a dedicação pastoral. Havia muitos padres naquele tempo envolvidos em política como também envolvidos em várias atividades não sacerdotais, por isso havia muita falta de padres no interior e ele resolveu com a licença do senhor bispo de Olinda, vir para Cajazeiras em 1829, iniciando então a sua caminhada.

Bruno de Lima: onde e quando exerceu a missão de educador na fé?

Padre Raymundo Rolim: essa missão de educador na fé ele exerceu inicialmente, como eu já havia dito, em toda a região do Ceará, onde percorria grandes distâncias. Vale lembrar que essas viagens eram feitas a cavalo, sozinho. De Cajazeiras pra o Inhamuns e até perto de Sobral, ele fazia missão apostólica, quando deixava o seu pequeno educandário, que primeiro foi na escolinha da Serraria (em Cajazeiras, na atual Rua Dr. Coelho), depois o colégio fundado já no povoado de Cajazeiras ele deixava por conta dos professores, que eram as suas irmãs e também alguns parentes que ele tinha e que trouxe do Recife e fazia essas viagens, permanecendo três ou quatro meses em cada fazenda, onde havia uma capela, ou se não havia ele improvisava um local onde celebrava e assim, fazia a sua missão de padre. Nunca foi pároco, nunca foi vigário, mas fez essas missões em toda a sua vida de clérigo (quase setenta e cinco anos de sacerdócio), nos estados da Paraíba, do Rio Grande do Norte, na região do Seridó, todo o Ceará e também em alguma região do Moxotó, no Pernambuco. Há vestígios da estadia do padre Rolim longe, onde ele permanecia a serviço daquelas comunidades abandonadas, num lugar onde um padre nunca pisava, mas sempre com a santa intenção de atender aos pobres. Pobres que não podiam ir às vilas e às cidades para fazerem casamentos, batizados e especialmente o batizado dos escravos, que eram considerados pelos patrões (senhores de escravos), como uma mercadoria e ninguém os batizavam e nem os casavam religiosamente. Eram comprados e vendidos, que não era gente. O padre Rolim se dava ao trabalho de batizar os escravos, tanto as crianças como os adultos e fazer o casamento destes nas diversas fazendas e locais por onde ele passou a vida inteira fazendo essas missões, dedicando especialmente aos mais abandonados.

Bruno de Lima: em que demonstrou seu espírito de renúncia?

Padre Raymundo Rolim: o espírito de renúncia do padre Rolim é demonstrado, sobretudo na sua capa-cidade de deixar voluntariamente o seu bem estar em prol dos próximos, ele sendo, como é do conhecimento do povo, um homem culto como a história atesta, vale ressaltar que ele conhecia e falava pelo menos dez idiomas diferentes. Inclusive idiomas, não só o Latim e o Grego Antigo, mas o Sânscrito, que era uma língua em que não se sabe se esse povo ainda existe. Pois bem ele foi convidado pelo próprio imperador D. Pedro II para ensinar no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e ele recusou gentilmente, não aceitou. Convidado pelo presidente da Província de Pernambuco para assumir a cadeira de Latim e Grego no Colégio Pernambucano ele chegou a aceitar, mas pouco tempo depois renunciou. Foi também chamado pelo presidente da Província da Paraíba para assumir a secretaria de educação de todo o Estado, todavia enviou uma carta agradecendo o convite do presidente. Quando recebeu do imperador Pedro II duas comendas honoríficas benefícios outrora concedidos a eclesiásticos pelo imperador em função do desempenho dentro do cenário nacional como educador, diz o meu avô, sobrinho de segundo grau do padre Rolim, que ele nunca usou essas comendas, essas medalhas de ouro, e pouco tempo depois ele as levou e entregou a um amigo, o Desembargador Boto de Menezes, dizendo: “faça disso o que quiser. Eu não uso isso. Isso não serve de nada”. De tal maneira era a simplicidade de que o padre Rolim que o levava a  recusar de tudo que era pompa, tudo que era, vamos dizer riqueza, ou qualquer prestígio, tudo renunciava e preferia ficar na singeleza de educador e como mero professor do seu colégio de Cajazeiras e que se tornou um colégio de grande fama, pois vinha alunos de todo o nordeste à Cajazeiras e além disso mantinha durante toda a sua vida o espírito de desafetação na maneira de trajar, de tratar as pessoas, igualhando-se a todos. Isso demonstrava exatamente o espírito de humildade e renúncia do padre mestre.

Bruno de Lima: de que modo viveu e como todos o viram na sua vida de penitência e oração?

Padre Raymundo Rolim: o que contam as pessoas que conviveram com ele, não só os alunos e professores, podemos também elencar o notável Irineu Jofre, que foi até presidente do Estado da Paraíba, todos reconheceram no padre Inácio de Sousa Rolim o homem penitente e o meu avô também falava deste seu lado asceta, ele tinha uma alimentação praticamente só para sobreviver, pois era pouquíssima e sem temperos. Meu avô também contava que ele plantava algumas carreirinhas de feijão no baixio do açude Grande e dali colhia umas vagens e não comia carne de gado e nem de criação. Muitas vezes quando uma pessoa matava um preá, que é um roedor pequeno, ele ainda dividia esse minúsculo animal em três ou quatro refeições. Este lado penitente ele transmita também para os alunos, ressalvando que tivessem o cuidado de não querer viver pra comer e sim comer só para viver. Ele se dedicava a essa tarefa de prevenir os jovens desses excessos. O padre Rolim nunca dormiu numa cama ou rede. A vida toda a família conheceu e testemunhou como também os alunos, que ele dormia sobre uma mala grande ou então em cima de uma tábua de madeira, dura e sem forro. Só na cabeça se dava o luxo de colocar um livro, que meu avô dizia ser um livro volumoso com um paninho em cima e em algumas vezes dormia no chão, sempre orando e meditando.

Bruno de Lima: como demonstrou a sua caridade de modo heróico?

Padre Raymundo Rolim: todo mundo sabe ou já ouviu falar numa epidemia do cólera morbus, que era uma doença fatal neste tempo. Praticamente não escapava ninguém que contraísse essa doença e como não havia recursos na região de Cajazeiras e, fala os livros, que até de Sousa vieram algumas fórmulas para serem manipuladas por algum farmacêutico para pelo menos aliviar o sofrimento do doente. Mas, em Cajazeiras, o padre Rolim fundou ao lado do colégio uma enfermaria, na qual recebia centenas de pessoas e dava ele mesmo assistência, arriscando a própria vida. Esse foi o sentido heróico de suas virtudes de caridade para com aquelas pessoas que estavam ali dependendo dele até o último momento da vida. Mais do que uma missão de religioso, ele fazia o papel de enfermeiro para com todos os pobres de qualquer idade e qualquer situação.

Bruno de Lima: onde, quando e como ele faleceu dando provas de sua santidade?

Padre Raymundo Rolim: a santidade do padre Rolim era conhecida em todo o nordeste. Existe uma expressão que era bom verificar até onde isso era realmente verídico, mas, existia na opinião geral de todo o povo que conhecia o padre Rolim na Paraíba de que havia três padres, não eram de boa vida, eram de vida boa no sentido de vida ilibada, vida limpa e que ninguém falava mal desses padres. Eram os padres Frei Martinho, Dom Eurico, que era beneditino e o padre Inácio de Sousa Rolim, em Cajazeiras. Sobre esses três padres ninguém nunca disse qualquer coisa que viesse abater a sua moral e nem muito menos as suas virtudes. Dessa maneira viveu a vida toda, todo mundo tinha esse conceito de que o padre Rolim era santo porque toda a sua vida foi um exemplo de caridade, de amor ao próximo, de renúncia e de penitência. Ele morreu em 16 de setembro de 1899, com quase cem anos e dando um testemunho até o último momento de sua vida de nunca ter se lamentado de todo o sofrimento dos últimos anos de vida e das doenças que o acometeram. Morreu com esse odor de santidade. De tal maneira que o povo do Nordeste quando soube do falecimento, quem pôde viajar à Cajazeiras se deslocou até esta cidade que se encheu de gente de toda a região para ver o último momento, antes do sepultamento do Padre Mestre e finalmente, vou abreviar um pouco, houve o testemunho de um oficial de um cartório de registro civil, que registrou um testemunho interessante e que está também no livro do padre Heliodoro Pires e em outras edições de outros escritores que fizeram biografia do padre Rolim, falaram que ele esteve depois de morto, durante mais de quarenta horas dentro da igreja matriz à exposição de todas as pessoas que queriam vê-lo e não havia sinais de putrefação de maneira alguma, pelo contrário, houve quem dissesse que ele exalava um odor de rosas ou de algum perfume. Isso era um sinal depois de mais de quarenta horas sem ser sepultado, não dava sinais de putrefação ou de destruição do seu organismo.

Bruno de Lima: onde e de que modo ele foi sepultado?

Padre Raymundo Rolim: ele faleceu no dia 16 de setembro de 1899 e foi sepultado no dia 18 de setembro, praticamente três dias depois. E seu jazigo se encontra na igreja paroquial de Nossa Senhora da Piedade, que hoje é a igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima e está sepultado até os nossos dias nesse mesmo local. Existiram pessoas, eu até procurei corrigir um livro que foi editado no bicentenário do padre Rolim, falava que os restos mortais do padre Rolim teriam sido exumados em 1937, puro engano. O que foi exumado em 1937 foram os restos mortais da mãe do padre Rolim, a mãe Aninha, que estava sepultada num túmulo na parte de trás, ligado a parede da pequena capela do Coração de Jesus, que é hoje a Praça Coração de Jesus. O prefeito Joaquim Matos mandou destruir a capela e foram encontrados dentro desse túmulo, alguns restos mortais da mãe do padre Rolim e foram levados e colocados na base do monumento do padre Inácio de Sousa Rolim, que está hoje em frente ao Colégio Nossa Senhora de Lourdes, chamada praça mãe Aninha. Mas os restos mortais do padre Rolim continuam lá onde foi sepultado, dentro da matriz Nossa Senhora de Fátima. Só que nesse tempo a igreja era pequena, não era do tamanho que é hoje, ela teria apenas uns vinte metros de comprimento por doze de largura e o local onde está os restos mortais pode serem identificados. Meu avô disse que assistiu ao sepultamento do tio (padre Rolim), e foi exatamente para ele, que era povo, que ele foi sepultado do lado direito do altar. Para os padres que se fizeram presentes no ato do sepultamento, como o padre Joaquim Sirino de Sá e Manoel Costa estiveram celebrando as exéquias e ele foi sepultado do lado esquerdo do altar, dentro exatamente da nave central. Por tanto aí está a história contada e já relatada em livros e que eu procurei resumir para que o povo tomasse conhecimento do que foi, do que é realmente a vida, a história e realmente o testemunho de fé de amor a Deus e ao próximo que deu o padre Rolim em toda a sua vida.

Bruno de Lima: quais foram os milagres alcançados por sua intercessão?

Padre Raymundo Rolim: existem várias narrações. Uma delas está no jornal Gazeta do Alto Piranhas e narra um milagre de uma criança, uma jovem, adolescente, na cidade de Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, veio com a família a Cajazeiras em 1989 e pagou uma promessa no sítio Serrote, onde existe uma capelinha onde padre Rolim residia e viveu seus últimos anos de vida, a família veio com o testemunho de um médico que atestou que a moça tinha um tumor na cabeça, fizeram uma promessa para o padre Rolim de Cajazeiras e com poucos meses depois foram feitos novos exames e o tumor tinha desaparecido. Então era sinal de que havia uma intervenção especial de Deus por intermédio do padre mestre Inácio de Sousa Rolim.

Antiga Matriz da cidade. Desenho feito pelo padre Raymundo Rolim



4 comentários:

VIVI R.C disse...

Olá,
Sou da família Rolim originada em cajazeiras e posteriormente, através de meu avô Arcênio Augusto Rolim, estabelecida em Bonito de Santa Fé.Gostaria de ter informações sobre meu bisavô o Padre Nazário Rolim.Conta-se em família, que este quando seminarista,veio passar férias em casa conheceu e apaixonou-se por minha bisavó , largou a batina casou-se e tiveram um único filho meu avô Arcênio.Acontece que minha bisavó teve problemas no parto
vindo a falecer , não sem antes obter a promessa do marido de que já que havia largado a batina por ela que voltasse ao seminário e não desse madrasta ao filho deles, o meu avô.Ele cumpriu a promessa ordenando-se e assim me tornei bisneta de padre.
Gostaria muito de ter mais informações sobre esse personagem tão interessante da minha descendencia.
Sds
Virlânia Rolim

Francisco Cleudimar F. de Lira disse...


Virlânia Rolim. Muito bonita sua história. Eu não tenho informações sobre o seu bisavô. Mas posso lhe indicar uma pessoa que talvez te dê mais informações. Essa pessoa é professor e historiador de Cajazeiras José Antonio Albuquerque. Ele é um bom conhecedor da formação das famílias de Cajazeiras. Entre em contato com ele pelo Facebook. O perfil dele no Face é: José Antonio Albuquerque. Ele é um cara bacana e vai ter atender.

Um abraço,

Cleudimar Ferreira.

José Augusto disse...

O Padre David Nazário Rolim foi pároco aqui em Serra da Raiz em fins do ´seculo XIX. Era muito amigo do meu bisavô Belarmino de Oliveira, inclusive tenho como herança de família uma Imitação de Cristo presenteada por ele. Infelizmente na galeria dos párocos não consta a fotografia do ilustre cajazeirense. Alguém tem?
José Augusto de Oliveira - Serra da Raiz-PB.

Francisco Cleudimar F. de Lira disse...

Pois bem, entre em contato com professor José Antonio de Albuquerque, que ele te dará mais informações sobre Padre David Nazário Rolim. O professor é também mestre em pesquisa sobre a história de Cajazeiras.