domingo, 15 de janeiro de 2012

Um santo e um padre cheio de filhos

 Francisco Sales Cartaxo (Frassales)

     A história de Cajazeiras e Sousa se entrelaçam. Cajazeiras foi sítio, povoado e distrito de Jardim do Rio do Peixe, elevada à categoria de vila, com o nome de Sousa, em 1800, justo no ano em que nasceu Inácio de Sousa Rolim. Mais tarde, um sobrinho do padre-mestre, o comandante Vital de Sousa Rolim, foi vereador à câmara municipal de Sousa, representando o povoado de Cajazeiras, pelo Partido Liberal, cujo chefe era o padre José Antônio Marques da Silva Guimarães. O padre Inácio Rolim e o padre José Antônio nasceram e viveram no século 19, ordenaram-se em Olinda, o primeiro, em 1825, e o segundo, em 1828, ambos residiram no sertão do Rio do Peixe a maior parte de suas vidas. Param aí, contudo, as afinidades entre os dois. O sousense tem um perfil totalmente diferente do estilo de seu contemporâneo de Cajazeiras. Alguns traços biográficos, extraídos do livro “Nos caminhos do vigário José Antônio”, de Emmanoel Rocha Carvalho, (Editora da UFPB, 2006), fornecem a exata dimensão do fosso que separa os dois sacerdotes, tanto no plano político, como na vida privada e religiosa. 
     O vigário José Antônio foi líder político-partidário de larga influência no sertão paraibano no tempo do Império, fundou o Partido Liberal em Sousa e exerceu quatro mandatos de deputado provincial. Padre Rolim, ao contrário, jamais se envolveu em atividades partidárias, sequer assumiu o cargo de diretor de Instrução Pública, apesar de nomeado pelo presidente da província da Paraíba, Ambrósio Leitão da Cunha, em março de 1860. Padre Rolim recusou a missão e, com a modéstia reconhecida por todos, admitiu aceitar o cargo de “regedor do ginásio”, ou seja, um simples professor! Ele guardava distância até mesmo de cargos eclesiásticos, salvo o “de capelão em algumas modestas localidades do interior do Ceará, para onde costumava se dirigir como mestre-escola”, conforme registrou Deusdedit Leitão, seu biógrafo mais cuidadoso. 
     E na vida particular? A diferença é enorme. Padre Rolim foi celibatário. Padre José Antônio, um invejável reprodutor. Ele mesmo assumiu essa condição ao deixar um importante manuscrito: “Lembranças do natalício de meus filhos”, datado de 28 de agosto de 1861, no qual “assume integral responsabilidade pelos filhos que trouxe ao mundo, no total de quinze”, como destaca Emmanoel Rocha, orgulhoso de sua condição de trineto do padre José Antônio. Isso mesmo, 15 filhos, seis homens e nove mulheres. O primogênito, veio à luz “no lugar Barriguda, então província do Rio Grande do Norte, em 03.09.1832, nascido do ventre de Caetana Gonçalves do Amaral”, como o pai-padre escreveu. Os outros 14 herdeiros nasceram de sua relação permanente com Maria da Conceição Gomes Mariz, com quem conviveu na fazenda Lagoa Redonda e na sede da vila de Sousa. Desse tronco genealógico provém numerosa descendência que ajudou a povoar os sertões da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Povoar e a administrar, tantos foram os descendentes políticos de prestígio, incluindo quatro governadores: João Agripino Filho, Tarcísio Maia, Antônio Mariz e José Agripino Maia. 
     O vigário José Antônio faleceu aos 82 anos, em 28 de outubro de 1888, “vítima de um câncer na próstata”. Já o padre Rolim morreu com quase 100 anos, em 16 de setembro de 1899, com fama de santo.




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