quarta-feira, 31 de julho de 2013



A Prefeitura Municipal de Cajazeiras divulgou a Programação Geral da Semana Cidade, que começará a partir do dia 17/08 até 22/08, dia em que a cidade em festa comemorará os 150 anos de história e emancipação política. Antecipamos para os seguidores deste blog, a parte da programação que incluir as atividades culturais. Veja abaixo. 

19h00
Lançamento da 2ª edição do livro “Estrada das Boiadas”, da escritora Rosilda Cartaxo, na Biblioteca Pública Castro Pinto.


08h00
Abertura da exposição do Artista Plástico Modesto Maciel na Biblioteca Pública Castro Pinto
Oficina de Manuseio de Câmera no Centro Cultural Zé do Norte
10h00
Oficina de Direção Teatral no Centro Cultural Zé do Norte
13h00
Oficina de Danças no Centro Cultural Zé do Norte
15h00
Oficina de Cântico-Coral no Centro Cultural Zé do Norte
18h30
Apresentação de dança “A Origem”, com alunos do Projovem Adolescente
Espetáculo de Dança “New Show
Espetáculo Teatral “Trinca, mas não quebra


08h00
Continuação da exposição do Artista Plástico Modesto Maciel na Biblioteca Pública Castro Pinto
Oficina de Manuseio de Câmera no Centro Cultural Zé do Norte
10h00
Oficina de Direção Teatral no Centro Cultural Zé do Norte
13h00
Oficina de Danças no Centro Cultural Zé do Norte
15h00
Oficina de Cântico-Coral no Centro Cultural Zé do Norte
19h00
Espetáculo de dança “Fora do Comum” com o Grupo de Dança de Rua da Paraíba 
e do “Hip Hop” com o Grupo Life Crew
Espetáculo teatral “O Pequenino Grão de Areia” com o Grupo Carrazeira


08h00
Oficina de Manuseio de Câmera no Centro Cultural Zé do Norte
10h00
Oficina de Direção Teatral no Centro Cultural Zé do Norte
13h00
Oficina de Danças no Centro Cultural Zé do Norte
15h00
Oficina de Cântico-Coral no Centro Cultural Zé do Norte
19h00
Espetáculo de danças folclóricas “Resgate” com o Grupo de Danças 
Tradicionais e Folclóricas
Encontro de bandas de música e fanfarras na Praça Nossa Senhora de Fátima. 
Participação da Fanfarra do PETI, da Banda de Música Santa Cecília 
e da Banda de Música da Polícia Militar do Estado da Paraíba
20h30
Festival Infantil de Capoeira no Leblon


20h30
Festival Chama de Dança de Rua no Leblon
22h00
Show Musical de encerramento da Semana do Município




quarta-feira, 24 de julho de 2013

Logomarca do aniversário dos 150 Anos de Cajazeiras é escolhida em concurso.


A Secretaria Executiva de Cultura de Cajazeiras escolheu, através de concurso, a “logomarca dos 150 anos de Cajazeiras”. A “logo” será a marca registrada do evento em que a cidade de Cajazeiras comemora 150 anos de fundação. A logomarca será inserida em folders, cartazes, impressos, envelopes e em todo material gráfico ou de mídea que será definido pela comissão organizadora do evento. A semana da cidade acontecerá no mês de agosto deste ano. Participaram do concurso cerca de oito designers gráficos, inclusive de outros Estados como Minas Gerais e Bahia. Entretanto, a comissão organizadora votou e escolheu como vencedora a logomarca do designer Reinaldo Romão Araújo Júnior, da capital do Estado, João Pessoa. O Secretário Executivo de Cultura explicou que a logomarca campeã foi escolhida entre 18 artes finais. “Nossa comissão escolheu através dos critérios pré-definidos e esperamos que a população aprove a logomarca”, disse. O primeiro colocado no concurso, Reinaldo Romão que receberá uma premiação de R$ 1 mil reais. Já os demais participantes, receberão certificados com fotos e com a logomarca oficial das comemorações dos 150 anos de Cajazeiras.

Homenagem ao Professor Antônio José de Souza, o saudoso "Titonho"




Por Francisco Marcos Pereira


Seu espírito de luta, sempre voltado para o futuro, 
ousou e conseguiu muitas vitórias.


Não há como falar de Cajazeiras sem a nominação marcante de antepassados que fizeram sua história, especialmente no campo educacional. O primeiro deles seria sem dúvidas o seu fundador o Pe. Inácio Rolim. – Nomino alguns os quais tive a felicidade de conhecê-los, participar dos seus projetos, e, até privar da amizade, a exemplo do Bispo Diocesano D. Zacarias Rolim de Moura, do Cônego Luiz Gualberto de Andrade, do Monsenhor Vicente Freitas e do inestimável e querido Professor Antonio José de Souza, carinhosamente chamado de “Titonho”. É deste último que reservo estas poucas linhas, lembrando hoje mais um aniversário de sua partida, acontecida em 17 de julho de 1989, para homenageá-lo e agradecê-lo pelo muito que fez por minha terra. 

Titonho” nasceu na Zona Rural de Cajazeiras, Sítio Cotó, hoje sítio Fátima, ainda quando Cachoeira dos Índios pertencia ao município de Cajazeiras. Desenvolveu suas habilidades iniciais de estudante no Colégio Padre Rolim. Como as dificuldades da época o impediram de concluir o ginásio, dedicou-se a ensinar o que aprendera. Abriu uma escola, iniciou o exercício do magistério, fez-se professor.

Seu espírito de luta, sempre voltado para o futuro, ousou e conseguiu muitas vitórias. Dirigiu jornal, participou da vida pública em órgãos do Estado e da Prefeitura de Cajazeiras, exerceu cargos importantes como de Secretário. Chegou a ser Prefeito Interino de Cajazeiras, nomeado pelo Interventor Federal do Estado, o Dr. José Gomes da Silva, cargo que ocupou por um mês.

Foi Inspetor Municipal de Ensino em Cajazeiras. Foi Secretário do então Colégio Comercial Monsenhor Constantino Vieira. Foi também Secretário da Biblioteca Pública Municipal. Dirigiu e coordenou o “Nova Era”, Jornal Oficial do Município, quando este era reproduzido dentro dos padrões normativos. Nele, além dos atos oficiais e das matérias da administração, costumava escrever artigos importantíssimos, os quais versavam sobre a história de Cajazeiras e/ou dos seus filhos.

Professor Antonio de Souza escreveu a história de Cajazeiras, dela participou, orgulhando a todos nós. A sua vida dedicada ao ensino, foi sempre de doar-se a causa do desenvolvimento social e da educação de Cajazeiras, pautada numa conduta ética, graças ao seu perfil de cidadão honrado, respeitado e respeitoso.

Quem queria conhecer Cajazeiras, buscava o Mestre “Titonho”… um acervo vivo… uma memória ambulante, um patrimônio moral que dou testemunho de fé, pois tive a grata felicidade de conhecer e de conviver como aluno do Colégio Comercial Mons. Constantino Vieira e como colega de trabalho a partir da segunda década da minha existência.

Cajazeiras foi contada em “retalhos” através de Crônicas desse “MESTRE ESCOLA”, como gostava de se intitular “Titonho”. Em sua residência, a convite dele, tive a oportunidade de visualizar um grande acervo de escritos…, fotos, livros. Não sei o destino que foi dado a tão importante acervo.

Ensinou para muitas gerações como proceder como pessoa educada, orientando-as para a vida, buscando forjar cada um dos seus alunos a responsabilidade com a cidadania, com o dever cívico e o compromisso para com o futuro da nossa terra.

Muito jovem, eu me sentia como um menino metido, quando era aceito em rodas de conversa do professor “Titonho”, ao lado de outras figuras que faziam parte da cúpula do governo municipal. Entre um drink e outro nos encontros dos sábados após o expediente da Prefeitura, deleitava-nos ouvindo suas histórias sobre Cajazeiras, seus filhos ilustres, sobre governos passados e a esperança do futuro que ele com maestria incutia a cada um dos que lhe ouvia. Era verdadeiramente um momento de aprendizagem.

Ter sido seu discípulo foi para mim, além de muito honroso, muito proveitoso, pelo que aprendi com seus ensinamentos, suas orientações.

Nesta singela lembrança busco homenagear uma figura que dedicou sua vida a nossa causa, e que Cajazeiras, esquecida como sempre, não lembra seus dedicados antepassados que edificaram o nosso presente.




fonte: ac2brasilia.blogspot.com.br

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Para não esquecermos João de Manezim.

Outra face de João de Manezim
Francisco Frassales Cartaxo

Em vida ele foi homem de sete instrumentos, de muitos amores e muitos filhos. De criatividade sem limites. Após a morte, sua personalidade multifacetada tem sido realçada por companheiros, amigos, admiradores ou simples conhecidos. Nesta última categoria me incluo. Morando quase a vida toda fora de Cajazeiras, não mantive com João Rodrigues laços estreitos de camaradagem. Mesmo assim quero juntar esta crônica a tudo que já foi dito acerca desse cajazeirense singular. Para isso, relembro dois episódios da história política de Cajazeiras, vividos na eleição de 1982, nos quais João de Manezim se fez personagem.

O primeiro fato se deu no debate no Grêmio Artístico realizado entre candidatos a governador da Paraíba e a prefeitos de Cajazeiras. Wilson Braga, único candidato ausente, fez-se representar pelo suplente de senador Bosco Barreto, numa evidente provocação. Ora, Bosco rompera com o PMDB, passando de mala e cuia para o PDS, e carregava nos ataques irreverentes contra Antônio Mariz, candidato da oposição. Boa parte do salão do Grêmio foi ocupada por marizistas de Sousa, em reforço ao pequeno núcleo do PMDB cajazeirense, na mais desequilibrada eleição após 1930. Iniciado o debate, o clima já muito tenso piorava com o destempero de Bosco Barreto a repetir agressões verbais dirigidas a Mariz, que revidava de dedo em riste, deixando a chaleira prestes a explodir. 

E explodiu. Da posição privilegiada em que me encontrava, sentado ao lado de Mariz, vi com meus olhos dirigirem-se para a mesa onde estávamos quatro partidários de Bosco Barreto: João Soares, Toinho Eletricista, Chiquim de Moisés e João de Manezim. Se havia outros, não retive na lembrança. Vinham em atitude nada amistosa. João Soares empunhou uma perna de cadeira que acabara de quebrar e partiu para a agressão física. Mariz seria o alvo. A tragédia não se consumou porque Zerinho se interpôs, enquanto os correligionários de Mariz lhe davam proteção em meio ao tumulto generalizado. Guardo na memória um detalhe da cena: um murro aplicado por João de Manezim em autoridade importante do município de Sousa. Impossível esquecer. 

João de Manezim e outros correligionários formavam na “turma de Bosco”, um cinturão espontâneo proteção a um líder político fisicamente muito frágil, como era Bosco Barreto. A partir daquele dia Bosco, bravateiro insuperável, propalava que Mariz não faria comício em Cajazeiras. Não havia clima nem Mariz teria coragem. João de Mnezim ficou marcado pela caravana sousense a tal ponto que, no dia do comício do PMDB na Praça Camilo de Holanda, (este é o segundo episódio que desejo narrar), já perto do seu final, dona Mabel, esposa de Mariz, me chama a um canto do palanque, aponta discretamente para um cidadão de cinto branco e pergunta:

- Cartaxo, aquele é João de Manezim?

Era ele mesmo. Ato contínuo, Mabel vai ao fundo do palanque. Resultado, em menos de três minutos, quatros “rapazes de confiança” do coronel José Sérgio Maia postaram-se em torno de João de Manezim. Nada aconteceu. Felizmente, tudo terminou em paz naquela noite de festa cívica para a minúscula oposição de Cajazeiras. Tempos depois, em encontro João de Manezim, recordo o episódio e indago se ele notara a presença dos seguranças e do risco que correra.

- Mas hómi, e eu sou doido!

Disse e deu uma risada. Uma risada daquelas que ficam gravadas na memória de todos nós, para sempre


fonte: sete candeeiras cajá

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Poesia Estudantil dos Anos 70 em Cajazeiras - Parte IV


             Hoje, dia 15 de julho, faz um mês que começamos a publicar neste blog, em forma de retrospectiva, parte da produção literária de poemas produzidos por jovens estudantes cajazeirenses na segunda metade da década de 70 e começo dos anos 80. Mais do que um “retrô” é também uma justa homenagem que se faz a juventude estudantil de cajazeiras das duas décadas, que através do exercício sensitivo da poesia, caracterizada pelos antigos festivais patrocinados pelo Centro Cívico Olavo Bilac do Colégio Estadual de Cajazeiras, é também um importante arquivo deixado para gerações futuras. Um precioso acervo que demonstra bem a forma como se comportava politico-social e ideologicamente os estudantes daquela época. Nos dias atuais, muitos são senhores bem sucedidos e constituídos socialmente, porém há de convir que resguardam ainda o gosto pela literatura, pelo jornalismo, cultura e arte. Uma prova que as raízes fincadas no trabalho literário do passado, não foram em vão para traçar seus perfis de agora.  




FRANCISCO GUTEMBERG CARDOSO DE OLIVEIRA 

Na época, em que produziu os poemas que segue, o jovem Gutemberg iniciava seus primeiros passos que o tronaria hoje em umas das figuras mais expressiva, do jornalismo e do rádio paraibano. Foi um incentivador direto na concretização do Primeiro Festival Interno de Poesias do Colégio Estadual de Cajazeiras e um dos participantes de quase todas as versões do evento na cidade. Sobre os poemas editados no livro “Raízes – Poesias” o jovem Gutemberg afirmou ao editor Luiz Alves: “fazer poesia pra mim é uma maneira de dizer de forma artística aquilo que eu penso sobre as coisas deste mundo tão conturbado”. E conclui: “Sempre aproveitei os festivais de poesias para fazer sérias denúncias, principalmente contra a repressão e a tortura, problemas muito sentidos pela juventude”.







COMO SORRIR?

Sim, como sorrir,
se no momento estou tão sério?
Sorrir,
se o time do custo de vida goleia a salário de dez a zero?
Sorrir,
se ligo meu rádio e tem assalto,
sequestro e estou fazendo poluição?
Sorrir se alguém bate a porta
e pede uma esmola: “pelo amor de Deus ajude teu irmão!”
Como sorrir,
se estou com uma dor corroedora no meu estômago desabilitado?
Como sorrir,
se na rua só se fala em inflação,
crimes e futebol, e quando volto encontro o coletivo lotado?
Mas sorrir, como,
se amanhã chega o cobrador insolente
e não tenho dinheiro.
Sorrir,
sorrir se meus filhos não me conhecem mais,
pois saio às 4 e retorno às 12,
como um forasteiro.
Sorrir,
se o mundo está sobre ameaça da bomba
alertadora e de pavio curto.
Como sorrir,
se compro a pílula para minha mulher assassinar nosso próprio filho?
Sorrir num mundo de crises:
do petróleo, da alimentação, da inflação...
E doenças a matar.
E não consigo sorrir.
Enfrento a realidade, baixo a cabeça.
E vamos chorar?
Não.
Levanto a cabeça e vamos lutar.

HOJE

Hoje... É um dia qualquer
 Hoje nasceu mais um ser
  Hoje morreram crianças
   Hoje rompeu-se um contrato de paz
    Hoje foi praticado um aborto
     Hoje no campo santo mais placas de jaz

Hoje haverá teste de bomba
 Hoje houve conflito radical
  Hoje tem na prisão nove tipo de tortura
   Hoje o terremoto matou centenas
    Hoje houve mais um defloramento

Hoje sequestraram o filho querido do pai milionário
 Hoje mais um disco voador foi visto
  Hoje o camponês desmaiou de fome
   Home, um homem na lua, outro em marte

Hoje se androgenou aquele que era homem
 Amanhã ocorrerá o mesmo de ontem
  Ontem os ocorridos de hoje os superam
   E no futuro? Ah!... No futuro...
    Cinzas! Cinzas! Cinzas! Nada mais.

FRANCISCO JOSÉ

No passado do subúrbio da vida
o filho da miséria surgia do relento sul
seu mundo era o mundo
imundo ele vivia na classe do descalço nu

Pelezinho da zona, tropeiro do destino
não imaginava carreira tão curta, ainda menino
no campeonato da vida, o jogo final cede chagou,
em seu fadário infeliz que a mão da sorte traçou

Na partida da partida, do desencontro da dor
a voz sofrida do povo, o lança fatal narrou

O pequeno penetra
no campo da vida
inocente nos lábios
barriga vazia
Zé buscava a bola
e o jogo corria
a maldade surgia
num lance covarde
penetra na área
aos vinte e um
da etapa mortal
atirou de cabeça
juiz não olhou
e agosto corria
e julho chorava
alguém reclamou
e o jogo parava
sem pena a cumpri
a saudade pagava
e no olho da rua
nas grades da vida
do mundo cadeia
está o culpado
que deixou jogado
no leito da rua
sem bola de meia
e no julgo precoce
do mundo dos maus
você não foi réu,
mais senti o tormento
do final julgamento
que não será lá no céu.

Poema em homenagem ao menor Francisco José, assassinado nas proximidades do Estádio Higino Pires Ferreira, quando tentava pular o muro para assistir uma partida de futebol. O poema foi transformada em música e concorreu a um dos festivais da canção, realizados em Cajazeiras

O PRISIONEIRO

E o mundo corre, e a vida passa...
Eu, eu calado.
seja no canto, seja no campo,
Não me perguntem, estou privado.
De repente me senti culpado,
fui vítima, covarde e herói.
mas descobrir sofrendo e vivendo
que alguém de fome morrendo, em mim dói.

Burlei meu estômago, tapeei a realidade,
camuflei irônica alegria
na magia, cotidiano da dura verdade.
Deitei fome, sonhei liberdade e acordei prisão.
Deitei, porque estava fraco e apático.
Sonhei... E como era boa a liberdade.
Acordei, não! Acordaram-me...
De súbito, olhei e já estava de mãos juntas
injustamente, pois só tentei defender
um direito sagrado, que agora é salgado.

No convívio quadrado: conselho, ameaças,
tortura e opressão, e dizem eles:
pra sua recuperação.
Já marginalizado, a morte era o meu
último e maior desejo
E eu? magro, barbudo, olhos fundos
e já desfigurado.
Mas lá fora alguém esperava o cortejo
Novamente sonhei... e como era bom o livre pensar,
o livre dizer...
Só que neste sonho eu não imaginei
que, sem fôlego, eu teria que despertar
pra novamente dormir e nunca mais acordar.

E partiu o herói que não temia partir.
E o povo chorou, que antes não conseguia rir.
No outro dia, ao romper da aurora da triste manhã,
um pequeno garoto: roupas simples, pés descalço,
um pacote de jornal à mão, corria de um lado para outro
das ruas, com muita aflição:
Extra! Extra! Extra!
“Detento enforca-se misteriosamente na prisão...”

Poesia classificada em primeiro lugar no II Festiva Estudantil Interno de Poesias, realizada em 1976 pelo Centro Cívico Olavo Bilac do Colégio Estadual de Cajazeiras. Uma homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado em São Paulo em 1975, nos porões da ditadura, durante a repressão.


Assim que nascemos,
na barriga levamos um nó da parteira Maria.
E se não morremos do primeiro,
de fome ou epidemia, e preciso coragem
e ser forte para suportar os nós das jornadas que afligem os fracos.

Pedro da fábrica:
na madrugada, na marmita, na lotação e na hora extra
boia tua fria e nua nesta vida neste nó.

José bem segurado:
na fila, na previdência, na doença,
geme curado pela assistência burocrática.
Que nó, que agonia.

Os estudantes:
no quadro no libro, no limite, no sete, na taxa, e no sete.
Com vendas, sem boca, sem poli, sem tica com nó.

As crianças:
na rua, na cola, no lixo, na gang, os gira-mundos
são raquíticos
dos conflitos do pobre contra a pobreza.

Os poetas:
no pó, sol, no canto livre, estamos no sol,
sem corda, sem dó,
apeiado na altura e altura dos senhores sem dó.

Os vagabundos:
na procura, no concurso, na fila, com dez, sem emprego,
mas se aperta o nó.

Chico do subúrbio:
no corpo, na cara, na cana, na lata,
no andaime, no biscate mergulho tragável fugindo do nó.

João lavrador:
na terra, na cova inha,
na planta nua e a colheita é sempre assim.
na distância do roçado é cada vez mais pouco meu bocado.

Todos:
nó no pescoço, na perna, nas mãos, nos olhos,
no nó e na consciência...
Você me desate esse nó!
Não pode... ah! Você também tem nó?
E você pode desatar este nó?
Não quer? Mas você também tem nó?
E você aí em cima, piedade, desate estes nós!
Não me escuta, não é?
Haverá um dia em que todos os nós farão um novelo
e no romper do novo dia,
em agonia eu hei de vê-lo.

“Nó”, em 1977, foi primeira colocada no III Festival Estudantil de Poesias de Cajazeiras.


fonte: Raízes - Poesias