sábado, 6 de julho de 2013

Poesia Estudantil dos Anos 70 em Cajazeiras - Parte III


                                       JOSIVAL PEREIRA DE ARAÚJO

Na época em que produziu os poemas abaixo, entre os anos de 1977 a 1981, Josival Pereira era um dos articulistas da chamada militância estudantil de Cajazeiras. Nesse período, começou a estudar história no curso fundado pela Faculdade de Filosofia Ciência e Letras de Cajazeiras (FAFIC), depois incorporado ao recém Campus V da UFPB, instalado na cidade em 1979. Foi membro do Centro Cívico Olavo Bilac do Colégio Estadual, tendo em 1977, com Dirceu Marques Galvão, organizado a terceira versão do Festival de Poesias desse estabelecimento de ensino. Sobre os poemas produzidos, o jovem poeta na época, (hoje jornalista do sistema Tambaú de Comunicação de João Pessoa), disse: “na verdade nunca me dediquei ou me preocupei com o escrever poesia”. E acrescentou: “o que escrevo sai muito esporadicamente e o faço com uma necessidade de comunicação com o mundo que me cerca”. Concluiu dizendo: “tudo que escrevo sai na forma de recado ou bilhetes para amigos, amigas e amores, que, parafraseando o saudoso Vinícius de Moraes, no caso é fundamental”.






MINHA ESCOLA

O homem nasce, trabalha, vive...
No trabalho assegura a vida.
Para viver melhor,
para trabalhar mais fácil
ele precisa aprender...
O homem tem necessidade de aprender.
Na minha terra tem uma escola
criada para instruir a gente.
No entanto, os donos dela
não querem que a gente aprenda,
e se tiver que aprender
que seja para serví-los.
Eu vou à escola
ela é cercada por um muro
e lá eu fico preso,
mas não quero ficar preso.
Vem o diretor e me grita
aplica-me um castigo.
O muro é alto
o portão e de ferro
e eu fico preso na escola.
Todos têm o direito à escola,
mas não todos que estudam.
Eu sei de milhares de pessoas
que não vão à escola
porque existe um portão,
no portão há um guarda
a serviço da nação.
Porque a escola não aceita
aluno com roupa rasgada,
aluno de pé no chão,
aluno sem ter tostão.
a escola só aceita
aluno bem uniformizado
aluno bem comportado
que decore a lição.

LEMBRANÇAS

Pensava lentamente
sorria tristemente
bebia amargamente
os últimos tragos
que restavam de saudades.

Pensava tristemente
sorria amargamente
bebia lentamente
o último copo
cheio de lembranças.

Pensava amargamente
sorria lentamente
bebia tristemente
os últimos desejos
do fracassado amor.

DESPERTAR

Antes João, só João
guardando no coração
esperança de um dia
conhecer a alegria.
O tempo vai passando
João vai observando
que dia após dia
morre sua poesia
desaparece o luar
cala a voz
sem forças para cantar.
Conhece a vida dura
joga seus sonhos no chão
sente na pele o mundo cão
cheio de Joãos a chorar.
Com as lágrimas ardentes
João vira valente
ergue a voz
canta e encanta
não cala, fala
não teme, teima
não para, dispara
não apaga, queima
não foge, fica
grita e acredita
na canção que canta
alerta, desperta
levanta a multidão
cantando a mesma canção
que acorda e liberta.

NOSSA GUERRA

Existe entre nós
uma verdadeira guerra
“guerra fria”

           Nossa guerra está
           no olhar
           no falar
           no sentir

Cada um quer
destruir o outro
e construir juntos
outra vida
vida nova
vida igual
vida de luta
noutra guerra:

           A guerra de todos
           em busca da paz.

AINDA UMA CANÇÃO DE RESISTÊNCIA

E mesmo quando a voz
for absurdamente sufocada
e não mais for possível
falar aquilo que se quer,
que o gemido surdo
denuncia a mentira
e frutifique a verdade.

E mesmo quando o suor
não mais existir
nem só uma gota mais
todas já arrancadas
pelos cruéis donos dos homens,
que aquelas gotas caídas,
na terra ou na fábrica,
germine a consciência
e brote a esperança
da redenção próxima.

E mesmo quando os braços
estiverem cansados
por produzirem riquezas
para outros braços
que só sabem embolsar
o que não lhes pertence,
que o fogo da liberdade
renove todas as células
e revigore a força
dos braços injustiçados.

E mesmo quando as cabeças
ficarem tontas
de tanto serem enganadas,
que a dignidade restante
escondida num canto qualquer
sirva de bússola
e faça da tontura
o caminho de cada um
e que cada cabeça
encontre o seu verdadeiro rumo
em busca do mundo livre.

E mesmo quando o primeiro
e único mandamento
for odiar uns aos outros,
que o espírito da rebeldia
acumulado no íntimo de cada um
espalhe a semente do amor.

E até mesmo quando o corpo
se encontrar triturado
pelas máquinas da exploração
ou pelos engenhos da miséria,
que o bagaço humano
reanime a fornalha da luta
e que se junte
e forme o homem novo.



                                JOSÉ ALVES PEREIRA FILHO

Com duas graduações, uma Licenciatura em Matemática e outra de Bacharelado em Direito pela AEUDF, Zé Filho com é conhecido, reside atualmente em Porto Velho/RO. Foi um dos incentivadores dos Festivais Estudantis de Poesias de Cajazeiras, tendo obtido o terceiro lugar no II Festival em 1976, com a poesia “Seis Horas”. Na época com 17 anos, o jovem Zé Filho externou seus sentimentos sobre o que escrevia com as seguintes palavras: “muito cedo eu comecei a me revoltar com as coisas erradas. Em certos momentos de depressão, dava-me vontade danada de sair gritando contra esse estado de coisa. Certo dia peguei um lápis e um papel e escrevi o que estava sentindo. Mostrei aos colegas e eles chamaram de poesias...”



SEIS HORAS

Seis horas.
Ouve-se ao longe
o som do despertar do relógio.
uma história a contar.
Seis horas.
Aquele que tem o seu abrigo, retorna.
O que não tem, revolta-se.
O que tem sede, bebe.
O que tem fome, come.
O que tem e não pode,
bebe, como,
apenas naquela fantástica ilusão.
Ela chora, e chora com razão.
Chora por ver nesta vida,
um simples “mundinho”,
onde nada é concreto,
tudo é fantasia.
Onde o tudo
é comprado por posições.
E é nessa posição
que moram as mais graves imundícies.
É lá que se encontram os grandes segredos,
que, nem no amanhecer do dia,
serão claramente revelados.
seis horas.
E aquele sofredor,
começa a pensar,
lágrimas a cair
barriga a roer
corpo a tremer,
ora prá que a Virgem Maria.
Faça descer um milagre,
faça vir um novo dia,
para que ele possa viver, sorrir, sonhr...
e ter um pouco de alegria.
Mas o milagre não vem
e o que fazer?
Lutar por seis horas
de um outro dia...

*O poema “SEIS HORAS”, dividiu com “MORTE,” de Eudes Braga, o terceiro lugar no II Festival Interno de Poesias do Colégio Estadual de Cajazeiras.

E ASSIM SERÁ A VIDA:

Romper as barreiras da vida,
se livrar de todas as ratoeiras,
truques e armadilhas
sair da ilha
e ganhar o continente
penetrá-lo.
Penetrar-se calmamente,
como se desvirginasse
uma donzela, uma moça, uma mulher!
Romper as barreiras da vida
e conquistar a liberdade,
conhecer da Ilha
o desejo da humanidade!
E entender toda a relação entre
entre mim e você
entre a prisão e a liberdade.
E na penetração
construir a ponte
entre mim e você
entre a ilha e o continente
e gerar o futuro do amor proibido
esperança de um novo alvorecer.

ORAÇÃO DE CADA DIA

Dorme filho, que teu pai foi trabalhar.
Dorme filho, que teu pai já foi pra guerra.
Dorme filho e sonha com coisas boas,
mas cuidado que desse sonho tu não poderás voltar.
Olha filho, tu não sabes o que é cantiga de ninar,
                  tu não conheces Papai Noel
                  o meu canto é triste,
                  a minha lágrima é dor.
                  a minha fraqueza é fome,
                  a minha vida é tudo.
Filho, os assassinos matam por ignorância,
                  que foi reflexo de uma educação,
                  que foi produto de um sistema.
                  Os ladrões roubam por necessidade,
                  que foi gerada de uma injusta capacidade,
                  que foi organizada pelo problema.
                  As prostitutas são putas por natureza,
                  que foi ocasionada pela vivência,
                  que foi obrigada pelos que fazem o esquema.
A vida é dura filho.
É algo indefinível, mas não impossível.
Acorda filho, que teu pai já voltou da guerra.
Pega a tua arma e vai tornar a vida possível,
                  que ela deixe de ser dura,
                  e que as prostitutas deixem de ser putas,
                  e que os ladrões deixem de roubar,
                  e que os assassinos deixem de matar,
                  e que tudo deixe de ser o que é,
                  e passe a ser o que deviria.
Vai filho, vai guerrear.
Conta os homens que consomem os homens


referencias: RAÍZES (poesias)

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