quinta-feira, 30 de abril de 2015

O cinema e o comportamento feminino em Cajazeiras nos anos 1920

por: Raquel Alexandre de Santana



Imagem meramente ilustrativa

Os cinemas fizeram parte da cidade de Cajazeiras no início do século XX, sendo uma das poucas opções de lazer entre as décadas de 1920 e 1930, fruto dos avanços tecnológicos motivados pelo crescimento das atividades comerciais e aumento demográfico da zona urbana. 

A telona se transformou numa forma das moças poderem “namorar” ou “paquerar” sem as vistas dos pais, numa época em que tais formas de sociabilidades eram bem complicadas e difíceis, como Souza (2009, p.78) destaca:

O certo é que o cinema motivou as atitudes dos namorados, pois as cenas de amor e ternura dos filmes e, o próprio ambiente escuro das salas exibidoras, favorecia a troca de afeições entre os espectadores, criando um cenário ideal para os casais realizarem seus encontros secretos e sonhos amorosos.

Entretanto, as moças, na companhia ou não de namorados, sempre deveriam estar acompanhadas de um adulto que pertencesse à sua família, ou seja, nunca estavam desacompanhadas.

Ao chegar à cidade de Cajazeiras nos anos 1920 o cinema causou um grande encantamento por parte da juventude que esperava ansiosamente a hora de assistir a „fita de cinema‟ como era chamado o filme. Entre os anos 1920-1930, os principais cinemas da cidade, o Cinema Paraíso depois chamado de Cinema Moderno e o Cine Teatro Éden, eram vistos como a principal diversão das moças e rapazes da época que além de irem ao cinema para se divertir, iriam namorar ou paquerar, evidentemente.

“O reflexo daqueles filmes de Tom Mix, Buck Jones, Pola Negri e Douglas Fairbanks, fazia com que nós adolescentes, imitássemos estes artistas em nossas brincadeiras, nos pátios dos colégios e nos matagais próximos” (COSTA, 1986, p. 70). Na Terra do Padre Rolim muitos filmes foram vistos como motivos de escândalo ou rejeição, pois os pais das moças solteiras as proibiam de assistir às fitas, devido eles concordarem que havia conteúdo impróprio para as donzelas.

Souza (2009) destaca ainda que as escritoras da Revista Era Nova, uma revista feminina que circulava na capital João Pessoa, de 15 de fevereiro de 1922, condenavam as moças que se utilizavam do cinema para namorar, o que era um desrespeito à sociedade que adotava o respeito à moral e aos bons costumes. Além do namoro e da paquera, o cinema era também um ponto de encontro entre pessoas amigas que se encontravam a fim de colocar os assuntos em dias e discutir os problemas ocorridos à sua volta, a exemplo dos acontecimentos sociais da cidade.

Afinal, o cinema como uma das mais importantes conquistas materiais republicanas causou inúmeras mudanças no comportamento de homens e mulheres, que pensaram em reviver as histórias e passaram a se enquadrar nos padrões de beleza dos galãs e divas da sétima arte.

Gostaria que em Cajazeiras pudéssemos viver os velhos tempos do cinema. Uma cidade ainda pacata no que diz respeito à opções de lazer, o cinema seria uma ótima opção. Afinal, nas grandes cidades continua em alta e porque não trazer para a nossa amada cidade do Padre Rolim? Sonho com esses dias...



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referencias:
SOUZA, Lincon César Medeiros. Cinematographo: A imagem da modernidade e das práticas socioculturais na cidade de Campina Grande –1900-1940. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Campina Grande. Campina Grande, 2009.
COSTA, Antonio de Assis. A(s) Cajazeiras que eu vi e onde vivi (memórias). Gráfica Progresso, João Pessoa, 1986.


fonte: Diário do Sertão

terça-feira, 28 de abril de 2015

Boas Notícias Para os Artesões Cajazeirenses





A Economia Solidária representada pelas artesãs de Cajazeiras - louceiras e louceiros; Osvaldo Moésia, Zélia Oliveira e Marlene Roberto - representantes do Coletivo Cultucar; Secretário de Cultura de Cajazeiras, Aguinaldo Cardoso; Rivelino Martins - Coordenador Regional da Gestão do Governo do Estado e Prefeita Denise Albuquerque; estiveram em reunião, ontem, dia 27, para discutir e planejar a abertura do Mercado do Artesanato, bem como da Economia Solidária de Cajazeiras , que poderão serem instalados no prédio onde hoje funciona o Açougue Público Municipal, que fica no centro da cidade. A fixação dos dois órgãos em Cajazeiras é uma parceria entre a Prefeitura e o Governo do Estado.  


ANTES...


Antes, a Secretaria Executiva de Desenvolvimento Econômico, na busca experiências para criar o polo do artesanato de Cajazeiras, esteve visitando no dia 25, o Centro Cultural Mestre Noza, na cidade de Juazeiro do Norte/CE. O referido centro é referência no artesanato da região cearense e em nível de Brasil, inclusive foi tema de reportagem da TV Cultura e TV Globo.

O centro nasceu em junho de 1983, a partir do Encontro de Produção de Artesanato Popular e Identidade Cultural. Conta com uma média de 195 artesãos cadastrados. As peças são exportadas para Europa, incluindo países como Inglaterra, França e Espanha; para os Estados Unidos, Canadá e Japão.

A intenção da Prefeitura Municipal de Cajazeiras é buscar a experiência de como funciona este importante centro do artesanato, para nortear na elaboração do projeto de criação do polo do artesanato de Cajazeiras, que deverá ser elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a Secretaria de Cultural de Cajazeiras.

“Umas das primeiras missões que a Prefeita Denise Albuquerque me incumbiu, assim que eu assumi a secretaria, foi elaborar este projeto com a intenção de valorizar a preservação e a transmissão da identidade cultural regional e dos saberes tradicionais e, principalmente, proporcionar emprego e renda”. Disse Kaliel Conrado.




fonte: Assessoria da Secretaria Executiva de Desenvolvimento Econômico.

sábado, 25 de abril de 2015

Café Conectado com a Profª Aldineide da Silva


Quando o assunto é exercitar a criatividade, Cajazeiras não tem jeito mesmo. A educadora e professora de história Maria Aldineide da Silva, com mais de 35 anos de serviços prestados a educação da cidade, agora aposentada, resolveu apostar nas suas habilidades para a produção de peças artesanais, usando materiais, muitos advindos da reciclagem, mostrando que Cajazeiras, atravessou os tempos, mas não perdeu o seu atrevimento e sua ansiedade e entusiasmo pela busca das expressões culturais de sua gente. A atitude da professora, nos cativa a pensar: "imagine e a secretaria executiva municipal de cultura, colocasse em prática uma atividade, cujo o foco fosse a de fazer um mapeamento dos focos culturais existente no município, e assim, trouxesse ao público, em grande evento, a real produção cultural da cidade e da zona rural." Vamos pensar! ... Sobre a professora, eu também, na década de 80, fui seu aluno no Colégio Estadual. Boas lembranças tenho da mesma.




terça-feira, 21 de abril de 2015

Ode a Cajazeiras, ou por tua culpa, por tua máxima culpa

Cleudimar Ferreira
cleudimar.f.l@gmail.com         

O poeta Ilismar di Lyra


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O poeta Irismar di Lyra é sem dúvida, depois da era Cristiano Cartaxo, o mais importante poeta contemporâneo cajazeirense de sua geração. Sem precisar de tanta louvação para rimar palavras bem colocadas sobre as particularidades da terra da cultura, ele através da sua lira, foi até agora, o que mais tem exaltado em seus poemas, os aspectos peculiares sociais e culturais de Cajazeiras. No seu livro, Cajazeiras - Uma aldeia poética, (editora universitária, UFPB, 1999) ele refuta a história social de sua terra adotiva, como se fosse uma câmera passeando pelo passado e presente de Cajazeiras, sem perder do foco um detalhe se quer do seu roteiro estético. Escrevendo quase que minunciosamente, as mudanças que o tempo impôs, e as lembranças que esse mesmo, levou. No poema "Ode a Cajazeiras ou por tua culpa, por tua máxima culpa" algumas dessas singularidades, são trabalhadas, quando o mesmo relembra fatos políticos; quando demonstra passagens importantes do movimento estudantil; da efervescência libidinosa da produção cultural e artístico de uma Cajazeiras remota, principalmente aquela dos anos 70 e 80. Poetisa a importância que foi esses momentos, e conclama a todos a não perder esses atributos e se engajar com a cidade, para que a mesma também não perca a sua identidade de terra que ensinou a Paraíba ler.
   
ODE A CAJAZEIRAS 
OU POR TUA CULPA, POR TUA MÁXIMA CULPA
poema de Irismar di Lyra

De sabedoria te imagino poema;
no exílio, minha`alma inquieta-se.
Na condição de filho
fora de casa,
fiz de ti, Cajazeiras,
o teor dos meus poemas
e, à distância, outra cidade me acolhe,
sem seus atributos peculiares.

Eu insulto daqui, a Cajazeiras pacata,
a que assiste patética, muda e sem ação
a administrações que se revezam
sem dar-lhe vez, voz ou direito de participação.

Eu insulto a política raquítica,
a que faz obras de fachada
e anda a passos de jabuti;
o administrador que constrói praça,
para outro que chaga destruí.

Eu insulto a Cajazeiras sem ateliês,
motivos pelos quais, os painéis
de Luisa Moisés
resistem sem galeria;
o teatro sem espetáculos,
a cultura em agonia.
(tem sido assim teu dia-a-dia)

Como Pedro negaste três vezes
a Raimundo Correia Ferreira
o Poder Municipal.
(esse certamente fora o seu mal)
Não! A essa Cajazeiras feito diocese,
que neutraliza os ideais dos filhos mais fiéis
e deixa que seus sonhos morram na catedral.

Refuto a Cajazeiras não tão bela,
quanto Marta Ferreira;
não tão fina quanto Liduina;
a que se perde em corsos,
comícios, carreatas, enterros,
procissões e infindáveis romarias.
Perdoa-me se n`algumas horas
te acho feia,
te penso longe,
te sinto fria.
Por tua culpa, por tua máxima culpa!

Exalto os anos setenta,
tempos memoráveis do Colégio Estadual,
da efervescência do movimento estudantil,
do Centro Cívico Olavo Bilac,
do culto a Flor do Lácio,
de descobertas mil.

Exalto os novos poetas a reivindicarem
em versos, espaço  para a arte
contestando a repressão política
do poder sobre a livre expressão
(tempo de pura deglutição)

Ainda que teus vivos, como teus mortes
não repousem a paz dos cães de Otacílio,
regozijo-me, por assim, amar-te,
e envio, daqui, um beijo, deste teu filho.

Fora! ... aquele que não sabe amar-te
Fora! Aquele que não quer reconhecer,
que pelos desígnios da arte e da cultura,
és a Terra que ensinou a Paraíba ler.




sábado, 11 de abril de 2015

As Glosas de um Poeta Popular do Sertão de Cajazeiras.

Cleudimar Ferreira


Leonardo Mota e Luiz Dantas Quezado






























Diz assim a primeira estrofe do seu poema mais conhecido:

Vi um Tiú escrevendo,
Um Camaleão cantando,
Uma Raposa bordando,
Uma Ticaca tecendo,
Um Macaco velho lendo,
Cururu batendo telhas
Um bando de Rãs vermelhas
Trabalhando n’um tissume
Vi um Tatu n’um curtume
Curtindo couro de Abelhas.

Os versos discriminados que compõe essa estrofe são partes de muitos que completam as seis estrofes do poema “A Bicharia” do poeta popular Luiz Siqueira Dantas, mais conhecido como Luiz Dantas Quezado. Quezado nasceu em 1850, no Sítio Caiçara, pertencente na sua época, as terras da ribeira de São João do Rio do Peixe, sertão de Cajazeiras. Considerado pelos mestres do folclore nacional, como maior glosador de todos os tempos do Brasil, Luiz Dantas Quezado faleceu no dia 05 de julho de 1930, em Aracati, Estado do Ceará, deixando um único livro editado: “Glosas Sertanejas”, publicado em 1922. O prefacio do livro foi feito por Dr. Florêncio de Alencar, com o pseudônimo de J. Cariri. Pertencente a ilustres famílias paraibanas, Quezado era filho de Luiz Dantas, casou-se com Maria de Jesus Dantas e teve três filhos: Chateaubriand, Estefânia e Graziela.

Sobre o seu mais conhecido poema, “A Bicharia”, há controvérsias se esse é realmente uma obra completa do poeta ou se o mesmo foi inspirado em outro hormônio seu. Em 1923, quando esteve em Fortaleza, o poeta apresentou a Leonardo Mota o poema “A Bicharada” que naquela época já figurava na primeira edição do livro “Cantadores”, publicado pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro em 1921.

Como o tema é antigo, há ainda uma outra versão parecida escrita por Leandro Gomes de Barros, talvez anterior à de Luiz Dantas Quezado, atribuída ao poeta-empresário João Martins de Athayde. Trata-se de um folheto de oito páginas. Como os poetas antigos gostavam de reaproveitar temas da oralidade é possível que “A bicharia” tenha raízes bem antigas.

O tema inspirou o compositor Zé Dantas - Siri jogando bola, gravação de Luiz Gonzaga e mais recentemente, o cantor e multi-instrumentista pernambucano Antônio Nóbrega - Coco da Bicharada, incluído no CD O marco do meio-dia. Se estivesse vivo hoje, Luiz Quezado estria com 165 anos.


















A BICHARIA
Autor: Luiz Dantas Quezado

Vi um Tiú escrevendo,
Um Camaleão cantando,
Uma Raposa bordando,
Uma Ticaca tecendo,
Um Macaco velho lendo,
Cururu batendo telhas
Um bando de Rãs vermelhas
Trabalhando n’um tissume
Vi um Tatu n’um curtume
Curtindo couro de Abelhas.

Vi um Coati marceneiro,
Vi um Furão lavrador,
Vi um Porco agricultor,
E um Timbu velho ferreiro;
Um Veado sapateiro,
Caitetu tocando “buzo”,
Punaré fazendo fuso,
Aranha tirando empate,
Vi um besouro alfaitate
Cortando roupa de uso!

Vi um peba fogueteiro
Soltando fogos no ar,
Vi Papa-vento mandar
À rua trocar dinheiro;
Carrapato redoleiro
Comendo farofa pura,
Um bando de Tanajuras
Empregado num café;
Vi um percevejo em pé
Com um grajau de rapaduras!

Vi um peixe de chocalho,
Formigão de granadeira,
Vi um camarão na feira
Comprando queijo de coalho,
Vi Calango num trabalho
Melado em mel de furo;
Seis víboras dentro do muro
Conversando em Monarquia,
Imbuá na freguesia
Tomando dinheiro a juro!

Vi mosca batendo sola,
Mucuim tocando flauta,
Caranguejo de gravata
E cabra jogando bola;
Vi pulga tocar viola,
Tamanduá engenheiro,
Guariba tocar pandeiro,
Vi um mosquito tossindo
Uma formiga parindo,
Procotó era o parteiro!

Vi um morcego oculista,
Cachorro vendendo cana
Jaboti de russiana
E um gafanhoto dentista;
Urubu telegrafista
Um gato tabelião,
Carneiro na Relação,
O Bode n’um escritório
Cassote de suspensório
Eu vi fazendo um sermão!

In Glosas Sertanejas, Quezado, Luiz Dantas. 4ª edição, “correcta e muito augmentada pelo auctor”, Typ. Commercial, Fortaleza/CE; 1925. O referido poema também está na 1ª ed. de Cantadores, de Leonardo Mota, publicado pela Livraria Castilho, Rio de Janeiro, 1921.

Capa da 4ª edição do livro: Glosas Sertanejas



























OUTRAS GLOSAS DO POETA LUIZ QUEZADO

Certa vez encontrava-se no seu Sítio Roncador, quando recebeu este malcriado bilhete, enviado por seu primo Napoleão Quezado, outro excelente poeta, com o qual gostava de brincar, trocando tal tipo de correspondências:

O velho Luiz Quezado
Passa a vida pobremente,
Na boca não tem um dente,
Com que mastigue um bocado,
No “Roncador” isolado,
Sem recurso e sem dinheiro,
Comeu o pai do terreiro,
Só lhe resta uma galinha,
Dos possuídos que tinha,
Só ficou o “tabaqueiro”. 

Ao receber o bilhete, o poeta Luiz Quezado, à queima-roupa, mandou a seguinte resposta:

O velho Luiz Quezado
Não passa a vida pobremente,
Tem, além do “Tabaqueiro”,
Uma  cabrita melada,
Muita cana replantada,
O burro “Peitica”, um carneiro
E, ainda prisioneiro,
Um macaco na corrente,
Algum feijão de semente,
Muito milho empaiolado;
O velho Luiz Quezada
Não passa a vida pobremente.

SAUDAÇÃO AO RECÉM-CHEGADO VIGÁRIO DA PARÓQUIA

Ó Senhor, não batei palmas
Por um pastor te chegado.
Eu sou o pastor do gado,
Vós sois o pastor das almas.
Vós viveis com todas calmas,
Eu vivo com lutadores,
Vós viveis entre os doutores
Instruindo e dando  exemplo,
Eu  no campo vós no templo,
Nós ambos somos pastores.”

APRESENTAÇÃO DO NEGRO BALIZA

- Este é o negro Baliza,
Que mora ali, no Besouro;
Tem tanta morte no couro,
Que só botão na camisa;
Para matar não alisa;
Tem sangue de cangaceiro;
É feroz e traiçoeiro;
Sabe roubar por estudo;
Duma vez só, rouba tudo:
Honra, existência e dinheiro!

NEM TODO PAU DÁ ESTEIO

Nem todo pássaro voa,
Nem todo inseto é besouro
Nem todo judeu é mouro, '
Nem todo pau dá canoa;
Nem tôda notícia é boa,
Nem tudo que vejo eu creio,
Nem todos zelam o alheio,
Nem tôda medida é reta, _
Nem todo homem é poeta,
Nem todo pau dá esteio.

Nem tôda água é corrente.
Nem todo adoçado é mel,
Nem tudo que amarga é fel.
Nem todo dia é sol quente;
Nem todo cabra é valente.
Nem tôda roda tem veio,
Nem todo matuto é feio,
Nem todo mato é floresta,
Nem todo bonito presta,
Nem todo pau dá esteio.

Nem todo pau dá resina,
Nem toda quentura é fogo,
Nem todo brinquedo é jôgo,
Nem tôda vaca é leiteira;
Nem tôda moça é faceira.
Nem todo golpe é em cheio,
Nem todos  livros eu leio,
Nem todo trilho é estrada,
Nem tôda gente me agrada.
Nem todo pau dá esteio,

Nem todo estrondo é trovão.
Nem todo vivente fala,
Nem tudo que fura é bala.
Nem todo rico é barão;
Nem todo azêdo é limão,
Nem todos pagam "bloqueio",
Nem tôdas as noites ceio,
Nem todo vinho é de uva,
Nem tôda nuvem traz chuva,
Nem todo pau dá esteio.

Nem todo prêto é carvão,
Nem todo azul é anil,
Nem tôda terra é Brasil,
Nem tôda gente é cristão;
Nem todo índio é pagão,
Nem tôda agência é Correio.
Nem tôda vaje é passeio,
Nem todos prezam bom nome,
Nem tôda fruta se come,
Nem todo pau dá esteio.

Nem todo lente é sabido,
Nem tudo que é branco é leite,
Nem todo óleo é azeite,
Nem todo rôgo é ouvido,
Nem todo pleito é vencido,
Nem todos vão ao sorteio,
Nem todo sitio é recreio, 
Nem tôda massa é de trigo,
Nem todo amigo é amigo,
Nem todo pau dá esteio.

UM BEIJO EM MULHER MEDROSA

Um beijo em mulher medrosa,
Dado escondido, às escuras,
É a maior das venturas
Que a alma do homem goza.

O beijo que é concedido,
Com liberdade e franqueza,
Parece uma sobremesa,
Depois de um jantar sortido.

Não deve o beijo ser dado
Com franca condescendência,
Mas sempre com resistência
Para poder ser furtado.

Convém que o beijo se tome
Depois de renhida luta,
como se fôsse uma fruta
Comida por quem tem fome...

Mas o beijo, a qualquer hora,
Que mais provoca o desejo
E quando a dona do beijo
Suspira, soluça e chora.

Porém o maior sabor
É quando a mulher nos nega,
Porque então a gente pega
E beija seja onde fôr!!!...




fontes: 
- Acorda Cordel
- Um olhar sobre São João do Rio do Peixe