terça-feira, 21 de abril de 2015

Ode a Cajazeiras, ou por tua culpa, por tua máxima culpa

Cleudimar Ferreira
cleudimar.f.l@gmail.com         

O poeta Ilismar di Lyra


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O poeta Irismar di Lyra é sem dúvida, depois da era Cristiano Cartaxo, o mais importante poeta contemporâneo cajazeirense de sua geração. Sem precisar de tanta louvação para rimar palavras bem colocadas sobre as particularidades da terra da cultura, ele através da sua lira, foi até agora, o que mais tem exaltado em seus poemas, os aspectos peculiares sociais e culturais de Cajazeiras. No seu livro, Cajazeiras - Uma aldeia poética, (editora universitária, UFPB, 1999) ele refuta a história social de sua terra adotiva, como se fosse uma câmera passeando pelo passado e presente de Cajazeiras, sem perder do foco um detalhe se quer do seu roteiro estético. Escrevendo quase que minunciosamente, as mudanças que o tempo impôs, e as lembranças que esse mesmo, levou. No poema "Ode a Cajazeiras ou por tua culpa, por tua máxima culpa" algumas dessas singularidades, são trabalhadas, quando o mesmo relembra fatos políticos; quando demonstra passagens importantes do movimento estudantil; da efervescência libidinosa da produção cultural e artístico de uma Cajazeiras remota, principalmente aquela dos anos 70 e 80. Poetisa a importância que foi esses momentos, e conclama a todos a não perder esses atributos e se engajar com a cidade, para que a mesma também não perca a sua identidade de terra que ensinou a Paraíba ler.
   
ODE A CAJAZEIRAS 
OU POR TUA CULPA, POR TUA MÁXIMA CULPA
poema de Irismar di Lyra

De sabedoria te imagino poema;
no exílio, minha`alma inquieta-se.
Na condição de filho
fora de casa,
fiz de ti, Cajazeiras,
o teor dos meus poemas
e, à distância, outra cidade me acolhe,
sem seus atributos peculiares.

Eu insulto daqui, a Cajazeiras pacata,
a que assiste patética, muda e sem ação
a administrações que se revezam
sem dar-lhe vez, voz ou direito de participação.

Eu insulto a política raquítica,
a que faz obras de fachada
e anda a passos de jabuti;
o administrador que constrói praça,
para outro que chaga destruí.

Eu insulto a Cajazeiras sem ateliês,
motivos pelos quais, os painéis
de Luisa Moisés
resistem sem galeria;
o teatro sem espetáculos,
a cultura em agonia.
(tem sido assim teu dia-a-dia)

Como Pedro negaste três vezes
a Raimundo Correia Ferreira
o Poder Municipal.
(esse certamente fora o seu mal)
Não! A essa Cajazeiras feito diocese,
que neutraliza os ideais dos filhos mais fiéis
e deixa que seus sonhos morram na catedral.

Refuto a Cajazeiras não tão bela,
quanto Marta Ferreira;
não tão fina quanto Liduina;
a que se perde em corsos,
comícios, carreatas, enterros,
procissões e infindáveis romarias.
Perdoa-me se n`algumas horas
te acho feia,
te penso longe,
te sinto fria.
Por tua culpa, por tua máxima culpa!

Exalto os anos setenta,
tempos memoráveis do Colégio Estadual,
da efervescência do movimento estudantil,
do Centro Cívico Olavo Bilac,
do culto a Flor do Lácio,
de descobertas mil.

Exalto os novos poetas a reivindicarem
em versos, espaço  para a arte
contestando a repressão política
do poder sobre a livre expressão
(tempo de pura deglutição)

Ainda que teus vivos, como teus mortes
não repousem a paz dos cães de Otacílio,
regozijo-me, por assim, amar-te,
e envio, daqui, um beijo, deste teu filho.

Fora! ... aquele que não sabe amar-te
Fora! Aquele que não quer reconhecer,
que pelos desígnios da arte e da cultura,
és a Terra que ensinou a Paraíba ler.




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