quinta-feira, 4 de junho de 2015

O homem, a bodega e a camionete

Escreveu Mariana Moreira
altopiranhas@uol.com.br




uando a bruma da manhã ainda deixava a paisagem indefinida e uma brisa friorenta arrepiava nossos corpos, o som do motor da camionete anunciava sua passagem na curva poeirenta da estrada. Em raras oportunidades, quando acompanhávamos um dos nossos pais a feira livre de Cajazeiras, a vinda daquele automóvel era como um passaporte para o sonho. Um bom dia entusiástico, a prosa solta, o afeto sincero era a melhor acolhida para os passageiros que, com suas cestas, sacos e outros improvisados apetrechos, lotavam a carroceria enquanto a apertada boleia recebia mulheres, idosos e crianças de colo.

E as velhas e tortuosas ladeiras e estradas, em muitos momentos, encharcadas de lama, e em outros, mais frequentes, enevoadas de poeira, conduzia a camionete e seus passageiros e motorista para a cidade e seu ritmo urbano. O retorno somente em meados da tarde, com cestos, sacos e sacolas esborratados de novidades. Muitos dos passageiros viajavam de confiança, ou seja, não tinham o dinheiro da passagem no momento e deixavam fiado até a próxima feira ou até a visita do domingo em sua bodega.

Este era Roque Martins que, em minha infância e adolescência, traduziu, em muitas manhãs de sábado, a esperança e o vínculo de ligação com a casa paterna. Estudante pobre, vindo morar na cidade, longe da casa paterna, eu e meus irmãos sempre aguardávamos a chegada de sua camionete Chevrolet que, gentilmente, trazia as cestas com o leite, a fruta da estação, as pamonhas e o cuscuz ainda mornos e aquecidos pelo carinho materno.

Um homem e sua gentileza. Na sua bodega, na ribeira do Cipó, nas manhãs de domingo, primos, familiares, compadres, moradores sempre se reuniam numa prosa rasteira e, entre um trago e outro de aguardente, atualizavam o cotidiano, partilhavam angustias e dividiam alegrias. Tendo ou não o dinheiro no bolso, a feira sempre era garantida, acompanhada por uma “pesada” de carne de porco.

Uma bodega bastante sortida com o que tinha de novidade na época: o fumo de rolo, o querosene, o sabão em barra, o açúcar e o café, em grãos e também moído, a linha, o botão “Brasil moderno”, a rapadura de lavra. Ora, tinha até mesmo “consolo” para criança. Num canto, alguns fardos de tecido faziam a alegria das comadres e revelavam o lado ousado de Roque que já colocava propaganda na Rádio Pioneira, anunciando “o estoque recém-chegado do sul do país”.

A bodega e a camionete de Roque Martins são uma das mais raras e caras imagens de minha infância. Em muitos momentos, passando temporadas, espontâneas ou movidas pela necessidade, na casa de meu avô Manoel Firmino, ouvia, no fim da tarde, os filhos de madrinha Vitória chegarem à casa de Papai Manoel com o cheiro do sabonete misturado a brilhantina, anunciando que iam à ribeira, ou seja, dar umas voltas pelo trecho entre as bodegas de Alvino Moreira e Roque Martins.

Em outros momentos, ouvia meu pai falar que ia à bodega de compadre Roque. Ali, em muitas ocasiões, sem ter o dinheiro, recebia a garantia de que estava franqueado o acesso ao que necessitasse. A confiança era tamanha que sequer anotava a dívida, muitas vezes só saldada na safra de algodão. Uma confiança que, alimentada pelos laços de parentesco, foi reforçada pelo compadrio. Roque e Dalvinha são padrinhos de batismo de minha irmã Bernadete.
A camionete, a bodega, a ribeira do Cipó foram sempre as marcas mais expressivas da vida de Roque Martins. Nascido em 17 de agosto de 1930, filho de Chico Martins e Quiquina Moreira, cresce como todo sertanejo, entre as poucas letras e as muitas lidas na roça, na criação dos poucos animais, nos exercícios religiosos, nas festas e folguedos populares, de cantorias e reisados, nos banhos de açude e nas prosas das debulhas de feijão e apanha de algodão.

Roque só abandona o Cipó em 03 de janeiro de 1987, quando os filhos, já adultos, seguiam os rumos de suas vidas. No dia 13 de janeiro do mesmo ano, com a esposa parte rumo a Rondônia, onde já residia a maioria dos seus filhos. Com frequência, vinha à Paraíba e, num roteiro nostálgico, percorria os caminhos e estradas da ribeira do Cipó, visitando parentes, compadres, se despedindo de alguns que não veria mais, lamentando outros que não esperaram sua volta.

Sua gentileza, amizade e lealdade aos amigos, aos princípios, a fé, no entanto, ficarão sempre como uma presença constante nas portas fechadas de sua bodega, no som da buzina de sua camionete, no cheiro do pão da rua que exalava das cestas e sacos retornados da feira livre, nas bicadas de aguardente e nos fardos de tecido que, imaginariamente, ainda transformam sua bodega na mais sortida da ribeira.




fonte: Diário do Sertão

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