segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Explosão de bomba no Cine Teatro Apolo XI há 40 anos atrás, vira tema de cordel.

Ilustração da capa do cordel de Janduhi Dantas 


   Portal Correio   
Cordel conta fato histórico ocorrido em Cajazeiras.


O atentado a bomba em um cineteatro de Cajazeiras, a 468 quilômetros da Capital, durante a ditadura militar, está sendo contado através da literatura de cordel. Esse fato da história paraibana ocorreu há 40 anos é pouco conhecido das gerações que sucederam a tragédia. Duas pessoas morreram. 

A ideia é do professor e cordelista Janduhi Dantas que resgatou o fato histórico numa linguagem acessível e poética, ao mesmo tempo que conscientizadora. Intitulada ‘O misterioso atentado ao bispo de Cajazeiras’, a obra é importante porque conta um episódio que não está nos livros de História e que não é contado nas escolas. 

Janduhi Dantas - Autor do Cordel
"Ditadura nunca mais! / Afirmo ao fim desta história/ Na esperança de que os jovens/ Tenham o caso na memória/ Assuntem que ditadura/ Sempre é vil, nefasta, inglória"

O fato histórico que completou 40 anos em julho deste ano ainda é um mistério e faz parte das investigações da Comissão Estadual da Verdade. O atentado aconteceu no dia 2 de julho de 1975, em plena ditadura do governo do general Ernesto Geisel. 

Uma bomba explodiu no cineteatro Apolo XI logo após a exibição de um filme e o alvo do atentado seria o então bispo de Cajazeiras Dom Zacarias Rolim de Moura. 

Ele não foi vítima da explosão que matou duas pessoas porque viajara para Recife naquele dia. A bomba estaria em uma mala que foi achada embaixo da cadeira cativa do bispo, que era cinéfilo. 

Na opinião de Janduhi Dantas, o resgate da história e a maneira como isso é feito são muito importantes porque mostram às novas gerações como a ditadura militar foi nociva a todos que viveram aquela época, mas com uma linguagem popular e poética. 

"Foi um momento muito triste e que precisa ser contado de forma mais fiel e crítica possível para que os jovens aprendam com a História e jamais repitam os erros cometidos no passado". 

Ao mesmo tempo em que ocorre a viagem a um fato nefasto e triste, o trabalho de Janduhi consegue mostrá-lo com uma leveza e uma riqueza que são típicas da linguagem do cordel. Cajazeiras, a cidade onde ocorreu a tragédia, também é reverenciada nos versos. O autor mostra a vocação cultural ante à tragédia. 

"Cidade que dá valor/ ao artístico, ao cultural/ onde Educação é sua/ base patrimonial/ cidade que sempre teve/ um charme intelectual"

Ensino:

Para a professora Irene Marinheiro, membro da Comissão Estadual da Verdade que coordena os trabalhos de investigação sobre o crime, a iniciativa de Janduhi Dantas é louvável e o cordel deve ser utilizado nas instituições de ensino. 

“Quero parabenizá-lo pelo trabalho e dizer que ele é muito importante para levar ao conhecimento dos jovens o que foi a ditadura militar vivida nesse país e principalmente mostrar os prejuízos que o regime trouxe não só para as gerações que a viveram, mas para as que ainda vivem as consequências dela”, enfatizou. 

“A ditadura foi um fato lastimável que trouxe prejuízos e marcas irreversíveis e esse trabalho veio para fazer uma retrospectiva dessa história”. 

Irene Marinheiro disse que as novas gerações precisam conhecer os acontecimentos e analisá-los com senso crítico para não cometer o equívoco de estar pedindo a volta do regime. 

Na opinião dela, o trabalho de Janduhi deve ser levado às escolas e às universidades porque as pessoas precisam saber que ainda existem famílias chorando pela vontade de ter os restos mortais de parentes que desapareceram naquele período e ainda hoje não se consegue informações que revelem o que aconteceu.

Abrangência:

Para a professora aposentada da UFPB, Inês Caminha Lopes, que fez a apresentação da obra literária, o cordel de Janduhi Dantas parte de um fato aparentemente isolado ocorrido numa remota cidade do sertão nordestino, e aborda um intrincado universo de grande abrangência. 

"Rico em informações, o texto apresenta um valioso panorama do contexto em que o fato ocorreu. Aborda elementos conjunturais e estruturais. Insinua um complexo de fatores históricos, culturais, religiosos e ideológicos mesclado à indissociável e onipresente questão do poder", analisa. 

Inês Caminha acredita que o cordel ‘O misterioso atentado ao bispo de Cajazeiras’ pode motivar os professores, principalmente os de História, a trabalhar com os seus alunos temas que levem a amplas reflexões. 

O viés educativo do trabalho de Janduhi Dantas também é destacado pelo sociólogo da UFCG, Rozenval Estrela. Para ele, trata-se de um registro raro que "revela-se como uma valiosa contribuição para a pesquisa de professores e estudantes sobre os anos de chumbo na Paraíba".




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