segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Os grandes eventos que marcaram a produção cultural de Cajazeiras nos anos 70 e 80.

Cleudimar Ferreira





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FESTIVAL REGIONAL DA CANÇÃO NO SERTÃO



O Festival da Canção acontecia uma vez por ano, numa sequência de quatros dias, ou seja, três eliminatórias e uma final. Trazia a Cajazeiras participantes de toda Região Nordeste. As suas várias edições que pontearam no tempo, deixaram um legado na música de nossa cidade. O evento musical foi responsável pelo aguçamento do movimento musical do sertão paraibano, numa época em que os nossos jovens músicos, influenciados pelas canções de protestos de compositores como Geraldo Vandré, Chico Buarque e Carlos Lira, que sonhavam com os ideais libertários.

Realizado em período áureo da nossa cultura (entre as décadas de 70 e 80), as primeiras versões do Festival Regional da Canção no Sertão, foram executadas através de parcerias formada pelo antigo Centro Cívico Olavo Bilac do Colégio Estadual de Cajazeiras e Grupo de Integração do Menor na Comunidade (GINC). Depois, na maioria dos anos 80, passou a ser apadrinhado pela Associação Universitária de Cajazeiras (AUC).

O mesmo foi importante para o movimento regional da música popular sertaneja, porque lançou as bases para ascensão hoje da música de Cajazeiras e da região, já que também ajudou na formação de músicos e compositores cajazeirenses, que ainda hoje faz da música uma página no seu diário de vida, como são os casos de Jocélio Amaro, Bá Freire, Riba e tantos outros. Gente importante da música paraibana de agora, como são os casos de Elba Ramalho, Escurinho, Chico César, Luizinho de Pombal e Chico Viola, passaram pelo Festival Regional da Canção no Sertão. 


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FESTIVAL DE POESIA ESTUDANTIL  


Outro grande acontecimento que marcou nossa cultura na década de 70 - entre os anos 73 e 77, foram as realizações dos exemplares do Festival de Poesia Estudantil. O evento antes de ser um congraçamento literário, que objetivava a criação e formação de novos valores na cultura e na literatura; era também um instrumento que a juventude secundarista cajazeirense tinha, como ferramenta educativa, de denúncia, que possibilitava o trabalho de conscientização da massa estudantil da cidade, para realidade social e política vivida pela sociedade sertaneja, numa época em que havia censura e repressão a produção cultural pelo país a fora. O Festival era bastante concorrido e chegou a dividir com os recitais do Grupo de Teatro Amador de Cajazeiras (GRUTAC), as primeiras práticas da poesia encenada na cidade. 

Congregava estudantes secundaristas e universitários; intelectuais, poetas e público geral da cidade e da região.  Durante os anos em que esteve em evidência, o Festival de Poesia Estudantil - como era chamado, foi realizado por instituições como: Grupo de Integração do Menor na Comunidade (GINC), Grupo Jovem Universitário de Cajazeiras (GRUJUCA), Centro Cívico Olavo Bilac do Colégio Estadual Crispim Coelho e Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cajazeiras (FAFIC).  


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SALÃO OFICIAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE CAJAZEIRAS


Realizado entre os dias 10 e 30 de agosto de 1978, pelo Governo do Estado e assegurado pelo total apoio logístico de pessoas influentes da sociedade de Cajazeiras, a exemplo de Íracles Pires e a Artista Plástica Telma Rolim Cartaxo, o 1º Salão Oficial de Artes Contemporânea de Cajazeiras foi o primeiro grande evento do gênero no sertão.

A pesar de ter nascido numa época difícil para as produções artistas no país, que as duras penas ou enfrentava o furor da censura, ou fugia do seu rolo repressor; o Salão de Arte de Cajazeiras foi o primeiro bem sucedido evento no gênero na Região. 

Teve através de decreto lei municipal instituído pelo então Prefeito da época, Francisco Matias Rolim – Chico Rolim, a sua garantia de realização anual, embora por ironia até, esse mesmo Prefeito que havia oficializado o Salão, ter descumprindo o referido decreto lei, não realizando a versão do Salão no ano seguinte, ou seja, no ano de 1979 e nem nos anos subsequentes.    

O Salão foi aberto para os artistas plásticos de Cajazeiras e do Nordeste, o que possibilitou a participação de artistas de cidades como Sousa, Piancó, Pombal, Patos, Campina Grande, João Pessoa, Recife/PE, Olinda/PE, Aracaju/SE, Aurora/CE. Para sua exposição que aconteceu solenemente, com a presença do Governador Ivan Bichara e sua esposa Mirtes de Almeida Sobreira; do Prefeito e artistas de diversas cidade da Paraíba;  foram classificados mais de 125 trabalhos, entre desenhos, esculturas, pinturas, tapeçarias e cerâmicas. 

Mesmo a sua realização ter acontecido em meios as dificuldades de um governo estadual pouco produtivo no setor cultural, como foi do Governo do Ivan Bichara, a classe artística da cidade não mediu esforços e os seus organizadores, conseguiram fazer um evento que parou Cajazeiras. O Salão instalado nas dependências do Grêmio Artístico Cajazeirense, premiou em dinheiro os três primeiros colocados e distribuiu medalhas e certificados aos demais participantes.





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  SERTANEJO (ENCONTRO DE ARTES CÊNICAS)  


As primeiras fundamentações do que veria ser mais tarde o Sertanejo (Encontro de Artes Cênicas) surgiram com o lançamento da Semana de Teatro Universitária, em 1977 e depois com a Mostra de Teatro Rápido do Sertão, em 1978. No caso da Mostra de Teatro Rápido, a mesma se caracterizava pela apresentação de espetáculos com duração de 15 minutos. Uma experimentação inovadora na estética teatral e nas artes cênicas do interior paraibano. 

Depois, em 1979, esse mesmo evento adquiriu um perfil que ia além de uma simples e abreviada mostra de teatro; já que incorporou na programação apresentações extras de espetáculos com maior duração, atraindo também amadores de outras cidades; passando definitivamente de 1980 até 1983, a se chamar Sertanejo (Encontro de Artes Cênicas). Consolidando nos anos 80, em o grande evento do movimento teatral amador sertanejo.

Em 1981, passou a ser promovido pela Coordenação de Artes Cênicas do Núcleo de Extensão Cultural (NEC), sofrendo algumas modificações importantes, agregando na sua programação, homenagens a destacadas pessoas que de uma forma ou outra, contribuíram para o desenvolvimento do teatro em Cajazeiras, como foi o caso do ator cajazeirense Geraldo Ludgero, prematuramente morto em um dos clubes sociais da cidade.

Nas suas versões IV e V, anos de 1982-83, teve como foco um viés mais político, abraçando a eterna luta dos amadores cajazeirense pela construção do teatro da cidade. Incorporou a mostra de teatro, debates, seminários, onde era discutido a as formas de luta pela construção da casa de espetáculo de Cajazeiras. Além disse realizou mostras de artes plásticas, happening e shows de palhaços nas principais artérias de maior concentração de público da cidade.


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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

UMA RÉSTIA DA CIDADE

Crônica publicada no Jornal A União, edição de 08/novembro/1984.




escrito por Mariana Moreira


As esquinas de Cajazeiras, embora não mais centenárias, ainda guardas algumas surpresas que nos extasiam, beirando a embriaguez. Um entorpecimento que anestesia como a picada de um escorpião que paralisa as nossas entranhas, espalha seus venenos em nossas veias, aguçando nossas irracionalidades e imbecilidades em busca de explicações do inquestionável.  

Esbarramos em Rosa Bêbada que nos lança na cara o permanente hálito de aguardente. Em sua lucidez alcoólica enxergamos que a lucidez pacata é uma mera ilusão dos alquimistas que não previram que este estágio entre o primeiro grito e o suspiro final é um intervalo diante do microcosmo divagações. Perdidos em nossas introspecções somos vermes que passeiam pela carne podre, degenerada pela inexorabilidade do tempo.

O padeiro grita em nossos ouvidos: Olhe o pão. E minha barriga acusa fome. Me intoxico com o bromato de potássio, deixando escorrer pelo canto da boca o veneno mel que sacia e mata. O prazer e sensualidade de nossos corpos também sentem fome. Anseiam por outros desejos e outras emoções, pungentes e incontroláveis. Buscamos novos sonhos e os horizontes morrem, pacificamente, nas águas sujas do açude grande.

Os nossos fantasmas são tão nossos que não queremos dividi-los com mais ninguém. Usufruímos a regalia de sermos assombrações de nós mesmos. Almas penadas em busca de perdão. Nos confessionários vomitamos nossos pecados e buscamos o perdão divino, traduzindo na benevolência que os costumes e tradições nos imprimem.

Vagando pelo intricado das esquinas perdemo-nos nos labirintos povoados de ninotauros que são meras extensões de nossos membros. Braços e pernas monstruosos que se desprendem de nossos troncos como hidras proscritas que alçam voos das cabeças das medusas de nossas consciências.

Em cada esquina. Em cada flagrante da cidade, uma imensidão se perde no azul cinza do sertão, isento de poluição, mas contaminado pela fumaça de nossos míopes de seres crescidos na fome. As esquinas e a cidade compartimentando a vida, espreitando nossos passos e arquitetando suas armadilhas, que nos prendem, asfixiando nossas opções de buscar um ar que foge para continentes imaginários que nossas idiotas cabeças supõem existir.




MEMÓRIA

O DISTRITO DE ENGENHEIRO ÁVIDOS E A CONSTRUÇÃO DA CAPELA DE NOSSA SENHORA APARECIDA




por: José Antonio de Albuquerque


O reinicio da construção do Açude Piranhas, em 20 junho de 1932, sendo o engenheiro Silvio Aderne, pertencente aos quadros do IFOCS – Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, foi causa rápida do aumento da população do povoado e várias iniciativas foram tomadas para atender os desejos e necessidades do povo.

Além do hospital e do cemitério, construídos em função da epidemia de 1932, Dona Celina Aderne, esposa do Engenheiro responsável pela obra, Silvio Aderne, encetou uma campanha para a construção de uma capela neste mesmo ano.

Conseguiu com a firma todo o material, além dos operários, mestres de obras, pedreiros e o responsável pela construção do altar foi o marceneiro Zé Cabral.

Dona Celina cotizava os operários que tinham melhores salários, os comerciantes e os proprietários de terras para ajudar a comprar o que faltava no almoxarifado da Inspetoria.
O terreno para a construção foi doado pela família Coura e ainda hoje a igreja usufrui as rendas deste terreno, do que sobrou para construir a capela que pertence ao patrimônio, através de foros e laudêmios.

Não se tem conhecimento de quem foi a iniciativa para ser Nossa Senhora Aparecida como padroeira da capela e no dia da chegada da imagem da Santa todos os carros que trabalhavam na construção, além dos demais carros pertencentes a particulares fizeram um grande acompanhamento e uma enorme festa com a participação do povo foi realizada.

O sino doado pela Inspetoria, que foi retirado da cafuringa, nome dado ao trem que transportava pedras para a construção do Açude, ainda hoje é o mesmo que badala para chamar os fiéis para as celebrações religiosas e principalmente para anunciar o falecimento de alguém da comunidade.

No ano da conclusão do açude, em 1936, a capela foi alvo de uma das maiores manifestações de fé e religiosidade do povo do Distrito, quando foi celebrada a primeira Missão, celebrada por Frei Damião, que além de atrair toda a comunidade, vieram muitos católicos de outros municípios.

Frei Damião voltou outras vezes ao Distrito para celebrar missões e era uma das áreas da Diocese de Cajazeiras, que sempre freqüentava, mesmo vindo fazer pregações em outras paróquias da cidade visitava a Vila onde foi sempre muito bem acolhido por sua população e era comum fazer visitas aos sítios vizinhos da vila.

Esta capela tem um significado muito importante na vida de nossa família: foi nela que foi celebrado o casamento de meus pais, Arcanjo e Mãezinha, no ano de 1945, por Monsenhor Abdon Pereira e foi nela que no ano de 1946 eu fui batizado pelo padre José Linhares e aonde também, em 1955, fiz minha primeira comunhão.

Alguns fatos relacionados a esta capela nunca os esqueci e os guardo com muito carinho nas minhas lembranças: quando das celebrações noturnas eu era escalado para retirar todos os sapos, a bico de sapato, do patamar da igreja por que as mulheres tinham muito medo deles. Depois da missão cumprida fazia o que mais gostava: tocar o sino para avisar ao povo que a novena ia começar. O repicar do sino fazia eco no boqueirão da serra e para quem teve a oportunidade de trabalhar na construção do açude, a exemplo de meu pai, e de muitos outros habitantes da Vila, deveriam se lembrar da velha cafuringa, soltando fumaça pelas ventas, com suas caçambas carregadas de pedras e o maquinista tocando o sino anunciando a sua chegada.

Por quem este sino dobra? Dobra, principalmente, pelos muitos operários que morreram na construção do açude que hoje mata, com as águas do Rio Piranhas aprisionadas, a sede dos cajazeirenses.

Imagens do Distrito de Engenheiro Ávidos

 
 




fonte: coisa de cajazeiras 

sábado, 19 de dezembro de 2015

UM INCENTIVO A DANÇA

NEC/UFCG encerrou atividades da Escola de Dança, com ótima apresentação das suas alunas.




O Núcleo de Extensão Cultural (NEC/UFCG), encerrou as atividades da sua Escola de Dança, com belíssima apresentação dos alunos matriculados para as aulas deste ano 2015. O evento aconteceu no dia 17/12, a partir das 19h30, no Adro da Igreja Matriz Nossa Senhora de Fátima, ou seja, em frente à Praça da Cultura. Conforme as imagens abaixo mostram, a apresentação dos alunos e alunas foi bastante prestigiada por familiares desses e pelo público em geral que compareceu em bom número, para ver a performance dos alunos. Para 2016, espera-se um crescimento maior de interessados em participar das aulas de dança no Nec. Para tanto, a sua coordenação já determinou a abertura das matrículas, que poderão serem efetuadas na sede do Nec - que fica na antiga Estação de Trem (por trás da antiga rodoviária), preferivelmente no expediente da tarde.


















quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

SERTANEJO (ENCONTRO DE ARTES CÊNICAS)

Toda efervescência dos anos 80, em um evento que marcou o movimento de teatro amador do sertão de Cajazeiras.




por: Cleudimar Ferreira


Dentro do calendário cultural do passado da cidade de Cajazeiras, em destaque, o que movimentou a produtiva década de 80 nas diversas linguagens da arte; nesse caso, o segmento teatral; nenhum outro evento foi tão especial como Festival Sertanejo (Encontro de Artes Cênicas). Era um congraçamento, uma efervescência beirando a um quase frenesi. Um encontro de paixões que pulsava nas veias de uma juventude, que praticava sua arte por pura sensibilidade, carregada de intimidade e desejo em fazer cultura, num período onde a arte no sertão paraibano, ainda não atingira sua maturidade que pudesse convencer, ou mesmo despertar em um público interiorano, a prática do consumo cultural; e seu engajamento como importância social, necessária no contexto dos movimentos culturais da época.

Foi nesse tempo de sentimento arredio, porém temperado de desprezo, onde tudo era encarado como amadorismo; distante do sonho de um dia o amor à arte de representar, pudesse ser transformado em ações de mudanças para uma classe amadora que tinha objetivos e não brincava de fazer por fazer teatro; que as versões do Sertanejo a cada ano iam acontecendo, crescendo, dando seu ar da graça, reunindo grupos; a princípio da cidade, depois das cercanias de Cajazeiras e de outros municípios mais distantes da Paraíba.

Para justificar a evolução que o Sertanejo de Artes Cênicas demonstrava a cada ano, vamos lembrar aqui, que esse acontecimento não andou por se só, foi sempre promovido por organizações culturais e instituições idôneas a exemplo da UFPB, através do seu Núcleo de Extensão Cultural (NEC). Além disso, com fortalecido apoio da Federação de Teatro Amador (FPTA). Entretanto, se havia ou não suficiência na injeção de recursos financeiro por parte da UFPB no evento; havia por outro lado, a gestão responsável da coordenação de Artes Cênicas do NEC, que se valendo de uma logística funcional, assessorada pela experiência gestora da FPTA; assegurou e permitiu o continuísmo do evento, até chegar em 1984 na sua sexta versão.

Porém para entender o sucesso que foi o Sertanejo de Artes Cênicas, faz necessário buscar no retrovisor, elementos determinantes que possibilitaram o seu surgimento. Um desses foi a realização pela primeira vez, em 1977, da Semana de Teatro Universitária da Paraíba. Um evento que basicamente lançou até 1979, as primeiras sementes que anos depois desencadearia no nascimento da Mostra de Teatro Rápido do Sertão. A mostra foi algo emblemático para os grupos participantes, porque só permitia participação da produção de pequenas peças, com duração de no máximo 15 minutos, além das exigências que os textos montados tivessem coerência com começo, meio e um fim. Um roteiro não muito fácil e desafiador para os autores de teatro da cidade, não acostumados com essa prática teatral. 

Nos momentos mais marcantes, as sequentes mostras de Teatro Rápido que foram realizadas sob a direção do Cineclube Vladimir Carvalho e Associação Universitária de Cajazeiras (AUC), por acaso, se caracterizaram por terem uma programação eventualmente restrita a participação de grupos amadores de Cajazeiras. 

No princípio dos anos 80, passou a ter um caráter mais expansivo, abrangente, aberta aos demais amadores da região sertaneja, incorporando definitivamente o nome de Sertanejo de Artes Cênicas. Sendo regionalizada, a mostra possibilitou a inclusão na programação, da realização de eventos cênicos reunindo grupos de teatro da cidade, da região e de Estados vizinhos a Cajazeiras. Além de proporcionar oficinas de interpretação, encenação e cenografia. Passou a ter shows musicais com artistas locais e de outras cidades. Em 1981, renovou mais ainda quando passou a ser realizado pela Coordenação de Artes Cênicas do Núcleo de Extensão Cultural (NEC) e agregar na programação, outra caraterística a das homenagens. Homenageado na versão deste ano, a imagem do teatrólogo Geraldo Ludgero, prematuramente morto em um dos clubes sociais da cidade. 


Nos anos seguintes de 1982-83, evidentemente as versões IV e V do evento, o Sertanejo (Encontro da Artes Cênicas) teve como foco as questões que envolvia a luta pela construção do teatro da cidade. Assim sendo, passou a assumir uma postura mais política. Nesse sentido realizou paralelo as mostras de teatro, debates, seminários e outras discussões sobre a importância e necessidade da construção da tão sonhada casa de espetáculo de Cajazeiras. Mesclando a programação com a realização mostras de artes plásticas, happening e shows de palhaços nas principais praças da cidade.   



fonte: Jornais A União e O Norte       

domingo, 13 de dezembro de 2015

IRAN LUCAS

DEPOIS DE JOCELIO AMARO E BOSCO MACIEL, OUTRO MÚSICO DE CAJAZEIRAS MOSTRA SUAS HABILIDADES EM SÃO PAULO.

Cleudimar Ferreira



Cajazeiras segue justificando a frase “terra da cultura”, que a ela foi atribuída por uma autoria ainda não revelado ou reivindicada. Essa expressão atingiu o consenso durante décadas, dado a produção artística que a cidade tem revelado nas suas quatros linguagens. Entre essas, a música, que tem se expressado através do talento do cajazeirense Iran Lucas Cavalcante. Músico, cantor e compositor, dono de uma voz inconfundível, Iran Lucas vive exclusivamente da música na cidade de São Caetano, em São Paulo, onde desenvolve seu trabalho musical, tocando na noite, em bares e restaurantes da Região do ABC paulistano. Na sua trajetória na música em São Paulo, Iran Lucas teve participação em várias bandas de rock; integrou o grupo musical “Tietê” e formou com dois amigos um grupo de samba chamado “Amor à Arte”. 

Apaixonado pela autêntica MPB, em especial a música regional nordestina, ele compõe o seu repertório com uma vasta seleção de nomes, como Luiz Gonzaga, Zé Ramalho (onde demonstra mais intimidade com a suas canções), Chico César, Fagner, Raul Seixas, Djavan, Alceu Valença e Lenine. Sua experiência no campo musical é vasta. O que dar a ele a credencial para tocar de tudo. Rock, pop, forró, sertanejo, samba. Ou seja, na música ele faz o que quiser para agradar seu público. 

Natural do Distrito de Boqueirão, município de Cajazeiras, Iran Lucas é descendente de uma família aficionada pela música. “A música na minha família é uma filosofia de vida”, afirma. Seu pai tocava acordeom e percussão. Os tios, cavaquinho; e o seu avô tinha uma banda de pífano e confeccionava de bambu os próprios instrumentos – os pífanos. Portanto, como ele mesmo diz “o seu DNA vem carimbado justamente desse envolvimento da família com a música”. 

Sua relação com os instrumentos começou ainda quanto era garoto, aos 8 anos. Primeiramente com o acordeom. Nessa época, conta que seu pai contraiu um empréstimo junto ao Banco do Brasil para comprar uma sanfona de 8 baixos para ele, e que aprendeu a tocar o instrumento, com ajuda de parentes. Mas foi da relação de amizade com o grande sanfoneiro da região de Cajazeira, Manoel Felipe, o qual, chama de ”meu mestre” já que aprendeu muita mais do instrumento, vendo Manoel Felipe tocar. Depois, aos 12 anos, teve sua primeira experiência com o violão e aos 16 anos, definitivamente, adotou a música como profissão. 

Iran Lucas na década de 80, deixou com sua família do Distrito de Boqueirão, com destino a cidade de São Caetano, São Paulo. Como todo nordestino que sai da sua terra natal para tentar a vida no sul do país, com Iran não foi diferente, trabalho muito e passou por situações diversas para garantir seu espaço como músico, como cantor e compositor. Diz que essa parte de sua vida, ele compara ao que Raul Seixas costumava dizer. Dizia Raul que já tinha passados por todas as religiões; filosofias e lutas políticas. Portanto, ressalva que aos 8 anos de idade, ele já desconfiava da verdade absoluta do que queria ser, e o que ele queria ser, era o que é hoje.    


    









terça-feira, 8 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS DO MEU CINEMA PARADISO

por Cleudimar Ferreira




Sempre foi apaixonado por cinema. E essa paixão não troca por nada. A imagem do garoto dirigido por Giuseppe Tornatore me faz voltar no tempo em que eu era um biscateiro nos lixos dos cinemas de Cajazeiras. Sempre a procura de um pedaço de fita de cinema e alguns fotogramas de filmes de faroeste - os meus preferidos. Usava esses restos de películas para brincar de cinema com os meninos da minha rua. Se pudesse voltar a esse tempo, faria tudo de novo. Depois, o contato natural com esse ambiente cinéfilo foi estreitando a minha amizade com os funcionários nas salas de projeção e assim acabei me tornando amigo dos operadores de projetores dos Cines Teatro Apolo XI e Pax.

Ai tudo ficou mais fácil. Tornei-me também mais tarde auxiliar de projeção desses cinemas. Aprendi a revisar os enormes rolos de fitas e depois passei a operar os projetores. Auxiliei muitas vezes os titulares dessa função, nesses cinemas, sem ganhar um centavo, só pelo prazer que sentia em está no cinema e pela magia que esse encantava meus olhos.

Grandes produções assisti. Ajudei a operar aquelas imensas máquinas. Em outra fase dessa minha afinidade com os cinemas de Cajazeiras, foi quando passei a dividir a programação de rua com o titular dessa função. Uma atividade em que para mim era a melhor de todas. Pois costumeiramente, um dia na semana, eu ia a Rodoviária com Cícero Alves (o Cícero do Bradesco) in memoriam, buscar os latões de filmes que vinham de ônibus do Recife. Para mim às quartas-feiras - dia em que os filmes chegavam da capital pernambucana, era o melhor dia da semana.

Ficava apreensivo, esperando abrir os latões para ver os cartazes, as fotografias e os rolos de fitas. Depois me deslocava com Cícero até uma das salas do Cine Pax para confeccionar as tabuletas com os cartazes dos filmes do dia, que eram colocadas na Praça João Pessoa com a Rua Padre José Tomaz e Estação Rodoviária. Como eu era para Cícero um excelente letrista, essa atividade era praticamente feita por mim.

Tempos depois veio o Cinema Novo. Nesse período, passei a integrar a equipe do Cineclube Vladimir Carvalho, num período em que o mesmo estava praticamente fechado. Mas como o tempo não é eterno e junto com ele tudo passa, como passa nossas vidas. Essa fase com a decadência do Cineclube me trouxe mais experiência e bem mais afirmação cultural. Atributos essenciais para a minha formação política e definição ideológica.

Foi um tempo bom. Aprendi mais a ser questionador e crítico do meu tempo, e entender que a decadência do Cineclube não era empecilho para nos desanimar. Eu e Eugênio Alencar - hoje professor da rede municipal de ensino de Cajazeiras, colocamos dois projetores de 16 mm doados pelo Instituto Gehts Alemã do Recife, em um carrinho de mão e saímos às noites pelos bairros, associação de moradores e sindicatos da minha querida Cajazeiras, exibindo documentários de graça para as pessoas interessadas nesse tipo de cinema.

Uma cópia do documentário "O que eu conto do sertão é isso", doada ao cine clube por Romero Azevedo, um dos produtores do filme, foi a película que a gente mais rodou nas fachadas das residências dos bairros de Cajazeiras. Lembro que depois de cada seção, havia sempre debates com discussões e questionamentos a respeito dos filmes que eram exibidos para comunidade.

Com o passar do tempo, hoje as lembranças desse passado, enciste em deixar e fugir da minha memória de 55 anos. Mas para prendê-las dentro de mim, sonho quase todas as noites com esse Cinema Paradiso que passou, levando com ele um pouco da minha adolescência e da paixão pelo cinema da minha terra, que envelheceu e quase já não existe mais.



créditos das imagens:
1- Philippe Noiret e Salvatore Cáscio em "Cinema Paradiso"
2- John Weyne em "Rastro de Ódio"
3- Cartaz de divulgação do Cine Éden na Praça João Pessoa.
4- Prédio onde funcionou o Cine Teatro Apolo XI