segunda-feira, 25 de abril de 2016

DE COMO CAJAZEIRAS VIROU MACONDO

Aldo Lopes
Artigo publicado no Jornal A União, em 1984, dia 20 (sexta-feira), Segundo Caderno, pág. 09. 





Como na cena do filme Viridiana, de Luiz Buñel, onde mendigos invadem uma casa abastada, e a mesa, reinventam uma última ceia pelo avesso, assim os atores do Grupo Terra, invadiram a capela do Colégio Padre Rolim, tomaram os microfones e abriram oficialmente o IX Festival de Artes da Paraíba. “Esses meus companheiros de sonhos, vendedores de ilusões, estão cansados de esperar”, disse o andrajoso líder dos anciões, encarnado pelo ator Eliezer Filho. A intervenção surpreendeu a todos pela perfeita plasticidade e ideal caracterização dos tipos.
Pródigo se mostrou o festival em intervenções dessa natureza. A mais espetacular delas ocorreu no teatro Íracles Pires, quando era mostrada a peça Um edifício chamado 200, de Paulo Pontes. Tudo começou quando o juiz da cidade, embriagado de direito e de fato, interrompeu a peça e ficou com o Ibope da noite. Pulverizou a plateia como o discurso que sempre sonhou desengasgar um dia. Berrou ser o espetáculo atentatório a moral e aos bons costumes. Os atores pararam, as luzes se acenderam e os aplausos espoucaram para e melhor intervenção teatral da semana.
A porção erótica e mulher de Eulajose Dias de Araújo, foi mostrada por Maria da Bethânia, num teatro de sombras. Um espetáculo capaz de fazer gargalhar, “a triste noiva do faquir”. O poeta e também barbeiro, é um desses veteranos de festival, e agora, descambando da casa dos 50 anos, afirmou ter chegado a uma fase de erotismo exacerbado. E o livro Diluvio de palavras, lançado durante o festival, é uma prova disse. A menina soube captar nesses cataclismas eulajoseanos as mais densas e compactas nuvens poéticas.
Um dia a cidade amanheceu repleta de cartazes: “Olhem para o Cristo as 17 horas”, apregoavam eles. Um grupo ia apresentar uma dança com lençóis. Tudo pronto, mas eis que apareceu um bêbado, arrebentou alguns panos e subindo no Cristo, os deixou esvoaçantes, atados aos braços da estátua, um descontraído rapaz, tentando recuperá-los, galgou apenas a base do Cristo e não teve mais coragem de subir o resto. Então ele triunfalmente resolveu não desperdiçar a plateia desabotoando a bermudinha jeans para mais uma demonstração (nota-se que foi o mesmo cara que tirou no Bar da Estação e no Colégio Padre Rolim) “Esse é o pior straip que já vi” reclamou uma garota passando mal e jurando se atirar serrote abaixo se o desacorçoado consumasse o ato. Quem olhou pro Cristo àquela hora, com certeza se arrependeu.
O açude de Cajazeiras, escaldante sob um sol que é a caldeira do padre eterno, está a merecer poemas de um Paulo Vieira local. Ali onde sangra os esgotos os pequenos viventes suburbanos tchinbungam para um banquete de verminose, mas crescem sadios e viris como uma vingança poética. “Os sertanejos são antes de tudo um forte”, como bem disseram F. Magalhães e Euclides da Cunha, “ele como rapadura e não contai nada, nem AIDS”.  Por falar nisso, a tal questão foi levantada para uma bicha na rua. A boneca se torceu, se torceu, se armou e deu uma botada: “meu filho aqui em Cajazeiras é mais fácil eu pegar um bucho”.
O que escapava a vista de muitos, era captado e registrado sob as mais variadas formas. Um jornalzinho mimeografado circulou pelos alojamentos durante a semana. Nada fugia a pena esculachava, aidosa e bem-humorada do cartunista, Cristovam Tadeu que afixava seus escrotológicos desenhos nas paredes do Padre Rolim. Improvisada ao sabor do momento, muitos dessas atitudes não foram projetadas pelos burocratas do Festival de Artes, e não foi preciso nenhum alvará para isso, porque o evento é do povo e deve ser multifacetado como ele é. Majestoso e chulo, sagrado e profano, como Erendira e sua avó desalmada, recriadas no cinema por Ruy Guerra e estampadas na tela do Cine Éden. Após sua projeção, público certamente cismou que se deve destruir aquilo que constrange e oprime, aquilo que os impede de enxergar as linhas de suas próprias mãos, como a moça da película. Uma seção tão Brasil, tão Sertão, tão América Latina!
Durante o dia o malvado sol expulsava a gente para as sombras dos pés de fícus e algarobas. À noite, Deus assoprava o Aracati e os forasteiros encantavam a cidade. O teatro, o cinema e a praça espumavam de gente. Quem não rolava por esses lugares biritavano bar da Estação ou no bar do Tetéu. O Tetéu é o único cristão da cidade que não dorme desde que montou o estabelecimento a quase dez anos. Ao invés de troféus e títulos, como recompensa pelos seus eméritos serviços prestados a comunidade, deram-no um apelido por causa de suas duas enormes olheiras que retém a insônia de precisamente 9 anos, 185 dias e algumas horas.
Como os ciganos que frequentemente invadiam o Macondo de Cem Anos de Solidão e instauravam na consciência da população o fascínio pela magia e pelo desconhecido, os participantes do IX Festival de Artes da Paraíba levantaram acampamento na então escaldante Cajazeiras, e, as barbas do Padre Cícero, prepararam um espetáculo descomunal.




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