sábado, 6 de agosto de 2016

As Aventuras do "Capitão Brechó" (I)



Francisco Alexandre Gomes, publicou entre os anos de 1981-82, no Jornal A União, uma série de contos e histórias denominada de "As Aventuras do Capitão Brechó", que segundo ele, baseavam-se nas peripécias e artimanhas praticadas pelo seu trisavô Belchior de Souza. Alexandre Gomes, foi diretor da secretaria da Câmara Municipal de Cajazeiras e professor de Língua Portuguesa no Colégio Comercial Monsenhor Constantino Vieira. Abaixo, transcrevemos três contos publicadas por Alexandre, no primeiro semestre de 1981. Dos três, destaque para o conto: "No Xadrez, Comendo Carne de Cachorro", que abril a série publicada no referido jornal.

Em cima da mangueira com a mulher do cego
Francisco Alexandre Gomes

João Raimundo, morador e amigo do “Capitão Brechó”, não nasceu cego. Não. Começou a perder a visão depois dos cinquenta anos e, aos sessenta, estava completamente mergulhado naquele mundo tenebroso de trevas. Foi ele o homem mais disposto que o “Capitão” teve a seu serviço. Era pau para toda obra e só deixou de trabalhar quando ficou realmente cego.  A princípio não queria de forma alguma se conformar com a miserável situação de inválido, mas não havia outro meio ou saída. Tinha que se conformar em não poder andar pelos campos a campear o gado nas tardes fagueiras, soltando o seu aboio dolente que ecoava nas quebradas da serra como um lamento cheio de saudades e se espalhava nos campos levado pelas asas do vento. Quando pensava nessas coisas tinha pensamentos negros: queria acabar coma própria vida, mas não podia, não porque lhe faltasse coragem, mas porque era temente a Deus e recebia o mal como um castigo por alguma falta cometida contra os céus quando moço. Ninguém jamais acreditou tanto nas coisas sagradas como João Raimundo acreditava. Era homem de fibra, mas tremia de medo quando alguém falava em purgatório e inferno. Inferno era para ele o lugar onde as almas condenadas eram jogadas em tachos com água e óleo fervente e onde o diabo noite e dia feria os condenados com seu tridente de fogo.

Só uma coisa mudou muito em João Raimundo: depois que ficou cego começou a sentir um ciúme doentio de sua mulher. Maria Flor era mais nova do que ele quinze anos aproximadamente. Mulher bonita, bem-feita de corpo e muita cheia de vida. O marido não a deixava só, um só instante. Até quando ia fazer uma necessidade fisiológica ou ia ao açude tomar banho ele ia com ela. Não largava mesmo a saia da mulher que vivia reclamando constantemente contra aquela atitude do marido. Mas não adiantava reclamar, cada dia o ciúme aumentava, mas ninguém que sabia do cuidado de João Raimundo para com a esposa jamais dela desconfiou, pelo contrário, todos a tinham em conta de mulher respeitável que amava unicamente ao marido.

Certo dia, a mulher convidou o esposo para que juntos fossem tirar mangas. Era a época das mangas e as mangueiras estavam muito carregadas. O marido aceitou o contive. Desse dia em diante, todos as tardinhas, Maria Flor chamava João Raimundo e juntos iam tirar mangas. Já no final da safra, uma certa tarde, a mulher subiu na mangueira e o cego ficou no tronco da fruteira a sua espera. A mulher demorava lá em cima, mas o marido não dizia nada. Ele estava ali abraçado com o tronco da árvore e ninguém por ali iria subir para com Flor se encontrar. De súbito, uma maravilha aconteceu. Não sei dizer com certeza se foi um milagre ou se foram as cataratas que lhe tomavam a visão que caíram dos cristalinos, só sei dizer que ele voltou a ver. E vendo, quase teve uma parada cardíaca. No alto da mangueira. Maria Flor fazia amor com o seu velho amigo o patrão. Naquele instante, sua voz interrompeu o silencio da tarde: “Desse daí desgraça que eu quero agora acabar com tua vida e a deste velho sem vergonha e traidor”. Colhidos de surpresa a mulher nada disse, mas, como sempre, o “Capitão” largou o seu repente: “Cri Jisus, meu cumpade, tenha calma, nóis istava pagano uma promessa que a cumade Fuló fez pra voimicê fica bom da vista”. Ouvindo isto, o ex-cego se retirou para casa e nada fez com a mulher nem com o “Capitão”. Ele era muito religioso.

Um ano depois Maria Flor pegava carona num câncer do útero e aí falar com São Pedro. Com as coisas divinas ninguém deve brincar. No sertão, timor Domini principium sapientie.



No Xadrez, comendo carne de cachorro.
Francisco Alexandre Gomes

Não, não é exagero meu, mas todo o folclore do Nordeste e, especialmente da Paraíba não tem nada que seja mais interessante em termos de aventuras e humorismo caboclo do que a figura do meu trisavô Belchior de Souza, popularmente conhecido em toda essa vasta região como “Capitão Brechó”. Toda sua vida foi uma maravilhosa aventura, mas por ter sido um homem que viveu, aqui nos confins da Paraíba no século passado, não é conhecido e nenhum folclorista escreveu nada a respeito dele até hoje.
Toda a rica história do “Capitão Brechó” me fora contada detalhadamente por meu avô Joaquim Quirino de Souza, que em menino com ele convivera e não se cansava de nos transmitir os fatos mais pitorescos da vida do seu famoso parente. E isso em mim, particularmente, despertava tamanho interesse que cheguei a jurar que um dia iria contar em livro todas as aventuras do “Capitão”. Mas como até agora não pude cumprir o juramento, vou tentar transformar toda essa história em comentários que, a partir de hoje, certamente, serão publicados, em série, pela A UNIÃO, contando com a bua vontade dos seus ilustres editores.
O “Capitão Brechó”, assim o chamavam, era um homenzarrão, pois tinha quase dois metros de altura e era forte como um touro. Era muito valente e repentista que na minha opinião não perderia para muitos de hoje. Tinha quatro filhos: Cotinha, Ana, Maria e José, e com sua prole trabalhando na agricultura, em terras de sua propriedade, e nos fins de semana, vendia carne seca em São João do Rio do Peixe (Antenor Navarro), Sousa e Cajazeiras. E por falar em carne seca ei-la aqui a primeira história desta série.
Andava o “Capitão” a vender carne seca, levando-a aos ombros e, sempre acompanhado por um dos rebentos, de porta em porta, aqui em Cajazeiras, mas como naquele dia se lhe ofereciam uma banca no açougue da cidade, lá ele ficou a vender a sua mercadoria. E sendo a carne muito gorda e bonita, a primeira pessoa a compra-la foi justamente a mulher do delegado, que era um sargento da polícia com fama de durão.
Chegando a casa a matrona cuidou em preparar um bom refogado para o esposo que andava as voltas com a segurança da cidade. Mas aconteceu que quando o cozido começou a ser preparado ao fogo, um cheiro estrambólico foi tomando conta da casa toda. A mulher desconfiada, chagando o marido para o almoço, disse-lhe que a carne estava tresando a cachorro. O marido então ciente disso cuidou em oferecer ao seu vira-lata de estimação alguns pedaços da carne. Dito e feito. O cão olhou, farejou, latiu e por fim fez pipi em cima da comida. Estava provado. Era carne de cachorro mesmo.
O “Capitão” fora preso. Seu castigo: comer no xadrez toda a carne dos dois cachorros que ele havia abatido e estava vendendo como carne de criação. Mas a carne era cozida na própria casa do delgado, lá numas trepes no final do terreiro, pela filha do “Capitão”. O “Capitão” obcecado pela ideia de sair do Cárcere dizia para a filha “Carrega a mão nos cachorrim, fia” ao que ela respondia: “Não posso, pai, o home, só dá um naco por dia”. E o pai “Cris Jisus, fia, vê se ele dá mais”. Assim o “Capitão” passou mais de dois meses no xadrez comendo cachorro no almoço e no jantar. Comeu até o Ultimo pedaço dos cachorros que ele capava e engordava par vender aos seus incautos compradores. O delegado havia lhe imposto uma pena que não valeu a pena, pois o “Capitão” continuou sempre o mesmo sicário.

Fez o Padre entrar na rua de cueca
Francisco Alexandre Gomes

O padre Manoel, que Deus o tenha na Gloria, era um homem de muita fé. Um verdadeiro representante da igreja e ministro de Deus. Mas desde o episódio das tripas de boi que foi objeto de um outro comentário anterior, que o “Capitão” não ficou gostando dele. E, por isso, vivia esperando uma oportunidade para dele se vingar. Vivia lambendo uma rapadura para pegar o sacerdote numa virada.
Certo dia, à tardinha, o “Capitão” voltava da feira, trotando pela estrada em sua burra de estimação, quando a distância de três ou quatro quilômetros da cidade se encontra com o padre Manoel que vinha vindo de um sítio das proximidades onde fora confessar um doente. Vendo-o só e a pé na estrada o “Capitão” teve uma de suas ideias perversas e aproximando-se do religioso foi dizendo-lhe: “Cris Jisus, seu padre! Se voimicê vai só e de pé, tenha cuidado, pois eu passei aí atrais por ‘um cachorro doido que vem mordeno até as varas das ceica. Voimicê se privina apois pra mordida de cachorro doido nem a chave do sacraro cura”.
O padre na sua ingenuidade de homem bom agradeceu de todo coração a informação que havia recebido daquele seu paroquiano. Prometeu ter todo cuidado, mas como a noite já se aproximava, ele resolveu pular a cerca e caminhar pelo lodo de dentro do roçado, pois assim estava mais seguro. Cachorro hidrófobo não pula cerca, era melhor enfrentar o carrapicho maduro de fim de inferno do que enfrentar um cão raivoso.
Com esta resolução, o bom pastor seguiu caminho rente a cerca em busca da cidade. Mas não havia ele andado mais do que alguns metros, e sua batina já estava totalmente cheia de espinhos. Até no chapéu e nos poucos cabelos, havia carrapicho. Daí algum tempo foi obrigado a tirar a batina e ficar só de calça e camisa, pois naquela época além da batina os padres usavam calça, camisa e cueca. Pois bem, livrando-se da batina e enrolando-a e colocando-a sob o braço prosseguiu caminhada. Andou novamente algumas braças e novamente estava cheio de carrapichos que lhe furavam o corpo dolorosamente. Mas continuou caminhando. Quando, finalmente, chegou a entrada da rua teve que parar debaixo de um juazeiro e tirar a calça e a camisa, pois não tinha mais condições de suportar os espinhos que o feriam. A roupa era uma armadura insuportável. Ele lembrava na sua agonia os sofrimentos de Cristo tendo à cabeça uma coroa de espinho e se perguntava como o Mestre havia suportado tanto sofrimento. Como havia suportado aquela coroa que lhe poram a cabeça.
Debaixo do juazeiro o reverendo esperou que a noite fosse vindo com sua escuridão para poder entrar na rua. A felicidade era que não havia luz elétrica e nem era noite luar. Não poderia vestir aquela roupa, pois com ela não conseguia dar um único passo sem ferir o corpo nos espinhos. Já iam sendo nove horas quando ele deixou o juazeiro e se dirigiu apressadamente para casa. Mas foi o cúmulo do azar. Ao passar em frente a uma residência alguém estava a porta com uma lamparina e esse alguém era a velha Totonha que o reconhecendo exclamou: “Cruzes credo! Mais vejo Sinhá, é o padre Manoel que tá andando na rua só de “ciloura”.


Cleudimar Ferreira
Agosto/2016

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