sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Os deserdados filhos da ponte

Que Cajazeiras é a cidade da Paraíba que mais agride sua história, o seu passado; disso não se tem dúvida alguma. Basta um tur pelas suas ruas, avenidas e praças, que se vai percebendo a mudança e o rastro de destruição dos seus equipamentos antigos - prédios, monumentos, fachadas. Nesse rastro impiedoso da devastação de sua memória que tem atravessado décadas, um fato grotesco marcou muito na sua sociedade, principalmente na parte social composta por artistas, jornalistas, historiadores e intelectuais em particular, foi a derrubada da velha ponte sobre o sangradouro do açude público Epitácio Pessoa – o popular Açude Grande.

Quem viveu esse momento, como eu vivi, lembra in loco do fatídico dia que passamos frente uma decisão arbitrária do então prefeito Epitácio Leite Rolim, de mandar derrubar a quase (esse ano estaria com cem anos) centenária ponte, simplesmente, pelo fato dos pilares da ponte estarem impedindo a vegetação aquática de descer pela sangria do açudo. Nesse contundente relato da jornalista Mariana Moreira, publicado no Jornal A União, na década de 80, possamos perceber como tudo aconteceu. Veja.


Os deserdados filhos da ponte
Mariana Moreira

A imagem permanece dramática em minha memória. As tábuas e pilares quase centenários e históricos sucumbindo, em razão de minutos, ante a forço bruta das maquinas e a incoerência de homens, vestidos de governantes e preocupados somente com o exercício autoritário do poder. A história da cidade é negligenciada em detrimento de antipatias pessoas que ferem as nossas esperanças e ideias democráticas.

A derrubada da velha ponte do açude grande de Cajazeiras foi uma medida insensata e que reflete a orientação dos nossos administradores em não zelar pela nossa memória histórica. Construída nos anos e 1915 e 1916, na administração do coronel Sabino Coelho, aglutinando esforços e homens, a velha ponte exercia fator de integração entre o centro e a zona note da cidade, funcionando como canal de comunicação para pessoas, animais e ideias.

Nas lágrimas de Sonia e no desespero de Wilma o reflexo cristalino de nossos íntimos desperdiçados pelos golpes das marretas e dos cabos de aço frios, manipulados por homens a arrastarem para a imbecilidade e a destruição os pilares e tábuas sob os quais debruçavam nossas cabeças e mentes, arquitetando sonhos e idealizando novos mundos, banhados pelo céu “púrpura” do pôr do sol que morria no horizonte sertanejo.

Uma medida insensata porque não veio respaldada pelas recomendações de engenheiros e técnicos, alguns deles com participação na esfera oficial do poder, que condenaram a demolição da ponte por ser esta uma medida incompatível com a solução ideal para o açude que, supostamente, ameaçava arrombar. Rumores fundamentados mais m sensacionalismo e promoções idiotas de alguns que em dados concretos e manados do consenso.

E os pilares continuaram sendo arrastados pelos tratores e cabos de aço, tão fortes que suplantaram as nossas tentativas de argumentar e venceram a nossa impotência ante o poder, manuseado de maneira antidemocrática e suicida. As águas do açude continuaram correndo pelo sangradouro como a levar a nossa revolta e frustração e outras gentes e a outros mundos, cerando fileiras em tono do nosso íntimo, agredido e desfraldando bandeiras que são esfarrapadas pelas fortes tormentas que não podemos controlar.

A derrubada da ponte por ser um monumento da memória história da cidade e integrante d uma área pública carecia se amplamente discutida e analisada em todas as instâncias da sociedade cajazeirense, abrangendo vereadores, artistas, comerciantes, jornalistas, historiadores, historiadores, engenheiros. Enfim, toda a população. Mas, pela pressão de um pequeno grupo de comerciantes e respaldado pelo exercício antidemocrático de poder, opta-se pela solução mais radical, mais dramático e elimina-se uma ponte sesquicentenária repleta de história e vida.

Sem tomar conhecimento dos projetos e tentativas arquitetadas para salvar o açude grande de Cajazeiras de sua morte lenta e gradual, à revelia dos gritos e protestos, a velha ponte caiu. Hoje, apenas um esqueleto de concreto atesta a amputação de um dos nossos membros vitais. E é esta a cidade que sediará o IX Festival de artes da Paraíba(?)




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