segunda-feira, 31 de outubro de 2016

BIOGRAFIA DO PADRE ROLIM

Frassales Cartaxo















Padre Rolim não é patrimônio da Igreja. Nem da família. Nem de Cajazeiras. Inácio de Sousa Rolim é patrimônio de todos. Da Paraíba, do sertão, do Nordeste, do Brasil. Por isso, qualquer cidadão pode falar de sua vida, de sua obra, de seu legado. Ou do menosprezo à memória dele, e até de possível injustiça praticada pela Igreja e pelas autoridades civis, como censurou em agosto deste ano o padre Francivaldo Nascimento, em desabafo-denúncia divulgado pela TV Diário do Sertão. Não sei se tal fala obteve a repercussão que a seriedade do assunto merece ou se as palavras caíram em corrente inútil do vento midiático. Esta semana, revi o vídeo produzido por José Dias Neto e Jocivan Pinheiro e o compartilhei em minha linha do tempo do Face-book, para registro histórico.

O padre Rolim nunca foi estudado com profundidade.

Explico. Não existe análise abrangente das múltiplas dimensões de sua trajetória, com interpretação crítica que resulte na formação de seu perfil completo. Os cajazeirenses nos habituamos a enaltecer suas extraordinárias qualidades de estudioso e educador, esquecendo de acompanhar seus passos em outras direções. Nos acomodamos, achando que a tarefa já fora cumprida. Engano. Deusdedit Leitão, o mais cuidadoso pesquisador de nossa história, deixou contribuição, até hoje inigualável, por meio sobretudo do livro O educador dos sertões: vida e obra do padre Inácio de Sousa Rolim, (1990), no qual ele corrige, inclusive, alguns enganos da biografia pioneira de padre Heliodoro Pires, Padre mestre Inácio Rolim: um trecho da colonização do Norte brasileiro e o padre Inácio Rolim, (1916). Além disso, há inúmeras contribuições esparsas, desde o artigo de Belisário Cartaxo (A Imprensa, 1903) a ensaios, reportagens e notas em revistas e jornais.

É pouco, muito pouco.

Muito pouco para a grandeza de uma das figuras mais expressivas do clero nordestino no século XIX. Falta a obra definitiva, de preferência crítica e menos laudatória, que alcance as profícuas ações do padre Rolim. Existem, é verdade, contribuições relevantes como o ensaio Padre-mestre Inácio de Souza Rolim, um retrato esquecido, do saudoso dominicano, professor da Universidade Federal Fluminense, Francisco Cartaxo Rolim, doutor pela USP, respeitado autor de livros de Sociologia da Religião.

Dom José Gonzalez Alonso teve a iniciativa de encarregar o então vigário de Triunfo, padre José Andrade, de recolher dados para a elaboração de nova biografia do padre mestre. Pelo que sei, Andrade juntou tudo o que lhe chegou às mãos, coletou informações em arquivos de capelas e lugares por onde andou padre Rolim. Enfim, acumulou acervo desconhecido por cronistas, historiadores, memorialistas acerca da ação sacerdotal do filho de Mãe de Aninha. Esses dados demonstrariam que a missão do padre Rolim foi muito além da conhecida dedicação à educação dos sertanejos. Quem sabe, podem abrir clarões para a revisão da biografia do padre Rolim.

A diocese abandonou o projeto?

Não se tem notícia dos resultados do esforço realizado nem da sequência normal à minuciosa tarefa do padre Andrade. É lícito esperar que o novo bispo, dom Francisco de Sales, dê uma chance à história do padre Rolim, retomando a preocupação de seu antecessor na diocese. E impulsione o projeto, dando-lhe apoio e consistência. Afinal, a criação da diocese de Cajazeiras tem muito a ver com a figura e com os frutos duradouros da ação e do prestígio que o padre Rolim projetou na Igreja brasileira e no Nordeste.


Francisco Sales Cartaxo Rolim é autor do livro Guerra ao fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco ao padre Cícero (Recife: 2016).

domingo, 30 de outubro de 2016

SOBRE TRENS…

Francelino Soares

Movimentação do Trem na estação RFC em Cajazeiras

Não sei por que, muitas vezes, as imagens exercem sobre nós um fascínio maior do que as palavras. Sobretudo para aqueles que vivem um pouco distantes da abençoada terra de Cajazeiras – os que Zé Antônio chamou, certa vez, apropriadamente, de “exilados” – o visual pesa mais do que o auditivo, ou seja, as imagens dizem mais do que as palavras. A propósito, diria eu que é uma verdade cristalina a afirmação de que o ser humano valoriza mais e sobremaneira as boas coisas da vida quando vem a perdê-las.

Assim é que, uma vez mais, estou a escrever sobre a memória afetiva que para nós representa a antiga estação da RVC – Rede Ferroviária Cearense. Não há como esquecê-la, pois, sempre surgem imagens que permanecem em nosso imaginário: a velha máquina impulsionada a lenha – a nunca esquecida “maria fumaça” – puxando os seus velhos carros ao som do seu gritante apito em direção à curva do bairro de Santa Cecília, quando levava pessoas e produtos comerciais, primeiramente para São João do Rio do Peixe, e, daí, para outras paragens. Assim foi/era desde o ano de 1926 até 1971, e, daí em diante, não mais… Ainda bem que nos restam essas lembranças que jamais serão apagadas de nossas mentes.

O propósito, hoje, seria fazer uma homenagem àqueles que, embora não fossem filhos de nossa terra, aqui marcaram época, deixando-nos suas imagens e seus atos perpetuados nas linhas e vagões da RVC: Seu Perez, Chefe da Estação, e Seu Uchôa, Chefe do Trem. Foram cidadãos cujas vidas, para nós, estarão sempre vinculadas ao objeto da Coluna de hoje: lembranças da estação, do trem, do apito, dos trilhos e da trilha que seguiam em busca de paragens, naquela época, mais distantes, mas hoje tão bem mais próximas. O progresso aproximou o roteiro, mas afastou-nos a lembrança tão cara daqueles dias…

1. Seu Perez, chefe da estação da RFC 2. Seu Uchôa, chefe do trem




fonte: (Articulistas) Blog: Coisa de Cajazeiras

sábado, 22 de outubro de 2016

A Arte Muralista na ótica do Projeto "Pintar Cajazeiras"

Cleudimar Ferreira


Gloriosa victoria. Diego Rivera, 1954. Témpera sobre lienzo. 2,6 x 4,5 m.

A pintura em mural ou muralismo é um procedimento antigo na arte universal. Suas primeiras produções são remotas, vieram do período da pré-histórica com as primeiras pinturas de homens-caçadores perseguindo bisões e outros animais, ou cenas do cotidiano em que viviam, feitas em tamanho real no interior das paredes das cavernas. 

Depois, muito mais adiante, no arcaico mundo Grego, teve o seu uso intensificado se espalhando por todo império romano e no antigo período bizantino. No transcorrer da era clássica, os trabalhos de Giotto deram extraordinário impulso a esse tipo de pintura. Durante o Renascimento, foram criadas algumas obras-primas em murais, como os conhecidos afrescos da capela Sistina, executados por Michelangelo, e a belíssima pintura "Última ceia", produzida por Leonardo da Vinci.

Com o passar do tempo, sua produção foi se tornando uma atividade popular na arte, ressurgindo com todo vigor no século XX, em três momentos: um gênero mais expressionista e abstrato, protagonizado em Paris por grupos cubistas e fauvistas, que influenciou nos trabalhos de Picasso, Matisse, Léger, Juan Miró e Chagall. Sequenciou com movimento revolucionário mexicano, dos muralista Diego Rivera, David Siqueiros e Clemente Orozco e em um curto momento nos Estados Unidos no incio dos nos 30.

No Brasil, a ideia de ocupar espaços urbanos com murais ou mesmo tornar ambientes arquitetônicos harmoniosos com a introdução dessa arte, apareceu com bem mais tenuidade, depois dos anos 50 com a construção de Brasília. Na Paraíba, artistas como Flávio Tavares, Euclides Leal e Arthur Cantalice, experimentaram nas décadas de 60 e 70 essa técnica, deixando seus murais em espaços públicos e clínicas médicas.

No final da década de 80 e início dos anos 90, um grupo de artistas plásticos de João Pessoa, patrocinados pelo Sesc, urbanizaram avenidas e ruas da capital com imensos murais coloridos, com temáticas e estilos diferenciados. Começava assim a popularização da pintura de rua no Estado da Paraíba.

Em Cajazeiras, ainda não há com consistência, registros passados do uso dessa técnica; a não ser, esporádicos resquícios executados em paredes de algumas igrejas, muitos desaparecidos ou desgastados pela má conservação ou ação do tempo, obviamente, relacionados a temática cristã, direcionados, portanto, a educação religiosa.

A pintura de muro propriamente dita, surgiu na cidade a partir da imaginação da Artista Plástica Telma Cartaxo, que como um sonho visionário de quem dormia fazendo da arte, usou seu travesseiro preferido que lhes acolhia com seus pensamentos e devaneios, para transformar essa viagem num antiquado projeto denominada de "Pintar Cajazeiras" . Tanto é, que tardiamente, seu sonho só veio ser concretizado em 1987, quando a técnica já tinha se tornado uma febre enfadonha nos grandes centros urbanos e a sua força já não atraia tanto a atenção do público em geral.

Embora, segundo afirmou a própria Telma Cartaxo na época em que foram realizados os primeiros murais do projeto na cidade: "foram nove anos de uma ideia adormecida", ideia cuja relevância no momento em que foi colocada em prática já não empolgava mais, mas para uma Cajazeiras tão distante geograficamente das novas tendências da arte, teve um significado importante, pois impactou os olhos de sua gente e regozijou a autoestima de seus artistas envolvidos, muitos ainda apartados de um entendimento primário da técnica do mural, uma atividade urbana característica das metrópoles do mundo moderno, que não mais tinha tanta graça assim, cujo grafite hoje é o substituto; a evidência e a realidade das ruas.

Veja abaixo o texto "O difícil parto da arte na rua", de autoria da jornalista Mariana Moreira, publicado no Jornal A União, página 11 - estadual, do dia 09 de setembro de 1987, onde ela relata em uma espécie de crônica, como foram os primeiros momentos da execução do projeto nas ruas de Cajazeiras.     




O difícil parto da arte na rua
Reportagem: Mariana Moreira     
Fotos: Jose Almir

Os muros sujos e polidos pela propaganda eleitoral e comercial abrem alas para a arte. Os artistas saem as ruas e, trazendo no arsenal a munição de pincéis, tintas, solventes e criatividade, forjam uma guerra contra o inimigo insensibilidade e marasmo. É o projeto “Pintar Cajazeiras”, concebido há nove anos por Telma Cartaxo e Íracles Pires, e que agora vem a luz deixando em cada esquina painéis gigantes que motivam participação arte-povo. O apoio é minguado, mas a alma do artista transborda de esperança e leva para o povo sua criação.


De repente a paisagem da cidade transfigura-se. Nos muros povoados por cartazes de velhas-recentes e ilusórias campanhas eleitorais a mão do artista manuseia o pincel e traça novos riscos, metamorfoseando gigantescos painéis que quebram o clima cinza e melancólico da modorrenta rotina cajazeirense. Da concepção individual ou coletiva vão surgindo traços geométricos, motivos tropicais ou visões abstracionistas como artista – como membro do povo.

O projeto “Pintar Cajazeiras”, gestado há nove anos na lucidez de Íracles e Telma Cartaxo, somente agora ensina seus primeiros passos, acalantados pela longa espera que pontilha a alma do artista de cansaços tantos e esperanças mais. “Pouco me importa que tenha ou não infraestrutura porque o que conta é que ele chegou num momento bonito, onde a emoção de pintar Cajazeiras e bem maior que o tempo de espera e a dor de partir”, evangeliza Telma Cartaxo.

Dessa forma, pelas ruas de Cajazeiras, no passar das horas que se agrupam em dias, muros são transformados em painéis, pintados sob a proteção de Deus Sol e como o testemunho da população – boquiaberta ante a iniciativa da arte saindo da clausura dos ateliês e ganhando cor, forma e vida em cada beco, em cada esquina. E a receptividade que o projeto vem recebendo da comunidade evidencia a verdade de que ele, agora, tornou-se o filho bem-vindo de toda a cidade. “E se faltar tintas, pincéis, solvente, verniz deixo a coisa correr. De repente, todo mundo contribui, se envolve e embala meu sonho”, profetiza Telma Cartaxo, reconhecendo que “o mundo da arte é um mundo fantástico, onde formas e cores fazem a humanidade mais linda e mais consciente”.

A consciência que precisa ser mais atiçada e melhor aguçada para que os pincéis não pereçam na velocidade da destruição gerada pela ignorância do seu significado. Não apenas Telma, mas todos os artistas engajados no projeto comungam do receio de que a arte que ganhou as ruas seja por elas consumida indevidamente e a todos acometa da indigestão imbecil do não entendimento. O temor de que amanhã os muros sejam desconexos espaços de publicidade eleitoral enganosa, disputados acirradamente, mas que não refletem, não questionam... apenas torna subserviente a consciência humana.

O projeto “Pintar Cajazeiras” já pariu sete painéis que espelham a visão individual de quem maneja o pincel e os condicionamentos que o artista sofre no dia-a-dia. O Painel do Olho é o mais significativo resultado do projeto porque traz a marca do traço infantil. Foram crianças do centro e da periferia da cidade que, a partir da perspectiva pessoal da função política do olho delinearam seu próprio universo.

A visão política que levou Ionas, Ivonaldo, Ednaldo, Sandro e Cristiano a deixar nas paredes da Juvêncio Carneiro as pinceladas dos “Emergenciados e Marajás”. Das crianças que pretendem invadir o Teatro ICA e fazer de suas paredes o espelho de sua alma, tingindo de vida os sonhos de Íracles. Eles todos, aliados a João Braz, Iwallone, Neide, Ricarte, Aldacira, Telma Rolim, Andréa e outros que estão se agregando a caravana da cor prometem transformar Cajazeiras numa galeria pública, onde a arte seja o ângulo de todas as esquinas, envolvendo na cidade o rastro de trinta painéis.

O Projeto “Pintar Cajazeiras” está nas ruas. Após uma gestação de nove anos ele nasce a revelia dos precários recursos e dos minguados apoios e estímulos. Sob a coordenação da artista plástica Telma Cartaxo, através do Atelier Cajazeirense de Artes Plásticas, ele tem o apoio do V Campus da Universidade Federal da Paraíba, da Prefeitura Municipal de Cajazeiras, da Associação Universitária de Cajazeiras e da comunidade. No entanto, são frágeis réstias que penetram pelas frestas da porta entreaberta, que precisa ser escancarada para que o filho recém-nascido receba a força vitalizadora do sol e não morra da inanição transmitida pelo vírus da insensibilidade.  




Reportagem publicada no Jornal A União, dia 09/Set., de 1987, pág. 11 - Estadual

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Site destaca o trabalho de Bá Freyre em Israel


BRASIL - MUNDO
Brasileiro se destaca em Israel como difusor da música nordestina.


O cantor paraibano, Bá Freyre - Foto: Divulgação


Um brasileiro está se destacando, em Israel, como difusor de ritmos musicais nacionais menos conhecidos no exterior, entre eles baião, xote e forró. Apesar de também tocar, em seus shows, ritmos famosos como samba, Bossa Nova e axé, o cantor e compositor paraibano Bá Freyre, de 61 anos, não deixa as raízes de lado apesar de morar em Israel desde 1992.

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Tel Aviv,

Bá, que tem 11 discos gravados, é um dos únicos músicos brasileiros a privilegiar e difundir em Israel estilos musicais nordestinos para o público em geral. Trata-se, segundo ele, de uma bandeira pessoal.

“Eu me sinto até responsável de ter levantado essa bandeira de universalizar a música brasileira, que já é conhecida no mundo todo, mas tem um núcleo da música brasileira que é pouco explorado. O baião era explorado, e é, no Japão, na Europa, mas na Ásia, aqui... Eu sou um dos precursores, que trouxe esse estilo para cá”, diz Freyre.

Nascido em Souza, na Paraíba, José Zilmar de Queiroga Freire, o Bá Freyre, começou cedo na música em Cajazeiras (PA), onde cresceu depois que sua família se mudou para a cidade.

Mas foi em São Paulo, nas décadas de 70 e 80, que participou de festivais da canção e fez parte da famosa Vanguarda Paulista, movimento cultural que destacou nomes como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti.

Membro da banda Amor Instantâneo, Bá também fez parcerias musicais com nomes como Tom Zé, Jessé e Zeca Bahia.

Ecletismo musical

Há 24 anos, se mudou para Israel, onde moram suas duas filhas, e começou a difundir os ritmos nordestinos, que, para ele, têm muita afinidade com a música oriental, ou “mizrahi”, como se diz em hebraico.

Em Israel, esse tipo de música é tradição não só dos árabes-israelenses, mas também dos judeus “sefaraditas”, originários de países do Oriente Médio e do Norte da África.

“O baião vem dessas influências da música árabe e da música francesa. O francês bebeu dos marroquinos, dos argelinos, da Líbia. Esses ritmos entraram dentro da música francesa que, quando foi exportada pro mundo, principalmente para o Brasil, influenciou no nascimento do baião. A mecânica do tempo, ritmo, do compasso, ela veio de elementos da música árabe”, afirma Bá.

O cantor Bá Freyre, durante um show em Israel - Foto: DR

Nessas mais de duas décadas em Israel, Bá já tocou com alguns dos maiores nomes da música local, se apresentando em shows, festas, eventos, em canais de TV e de rádio. Em todo esse tempo, seus shows com compasso e batuque nordestinos foram muito bem recebidos pelo público local.

Seu último trabalho autoral foi o CD “Tudo pela música”, lançado no ano passado com produção de Roberto Menescal, mas ele já se prepara para a gravação de um novo álbum.
Dessa vez, a ideia é inserir em seus baiões compassos e instrumentos da música “mizrahi”, como por exemplo a “darbuka”, espécie de tambor árabe.

“Eu trouxe da lá para cá. Agora quero levar daqui para lá. Assim, quero acoplar o elemento ‘mizrahi’ nas músicas que estou compondo e em outras que já estão prontas. Quero botar a ‘darbuka’ (tambor árabe) e outros instrumentos coma cor da música israelense e árabe dentro da minha. Isso vai causar um impacto”, acredita o cantor e compositor paraibano




Veja melhor a reportagem de Daniela Kresch no site VOZES DO MUNDO

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Conjunto de Câmara "Mandacaru", quem lembra?

Cleudimar Ferreira



A música instrumental em Cajazeiras teve na Banda Santa Cecilia a base para formação de músicos, que não só servia a própria banda, mas que também incrementava os conjuntos musicais e orquestras de bailes e de frevo que surgiram na cidade e nas cidades vizinhas a Cajazeiras. A Orquestra Manaíra - a nossa Big Band, foi o exemplo desse momento, atravessou anos animando os grandes bailes dos nossos anos dourados. Entre os anos 60 e 80, os metais, instrumentos principais das filarmônicas da época e o violão popular, eram quase que unanimes na formação de qualquer grupo, não importando o gênero de música que tocava. 

Já os instrumentos sinfônicos, entre tantos outros usados na composição de uma orquestra, era algo imaginário entre os músicos e no meio musical, uma coisa de outro mundo. O violino por ser o mais conhecido, era uma novidade ou raridade se ver, até surgir na década de 80, a formação, talvez, do primeiro conjunto sinfônico de Cajazeiras – o Conjunto de Câmara “Mandacaru”.

Formado por Rivaldo Santana (maestro), Ademar, Ilma Braga, Rubens e Moacir Abreu, o “Mandacaru” surgiu como uma opção no limitado cenário da música em Cajazeiras, objetivando oferecer ao público uma novidade musical voltado exclusivamente a música de câmara, inserindo-se no contexto cultural e artístico da cidade, onde, por um imperativo, os caminhos que seriam percorridos, eram claros o de estimular seu povo e a sua gente a valorizar sua arte, seu folclore e sua cultura, através da prática da música de um modo geral, mas também, acrescida de elementos eruditos personalizados nesses instrumentos, como é caso do violão clássico, do violino e a flauta transversal, instrumentos básicos utilizados para a formação do Conjunto “Mandacaru”. 

Segundo levantamentos feitos e baseados nas informações prestadas ao jornal A União por seus componentes na época de sua fundação, em 1980, o "Mandacuru", surgiu por obra do ocaso, já que não se sabia se havia na cidade músicos com habilidades nesses instrumento, nem com prática em leitura de partituras ou com inclinação para execução de peças musicais no estilo popular/erudito. Com a localização e contatos, depois de exaustiva procura por esses profissionais, foi possível acontecer o primeiro encontro e os primeiros ensaios dos músicos.

Após semanas se preparando para o concerto inicial, em novembro de 1980, o Conjunto de Câmara “Mandacaru”, fez sua primeira aparição ao público durante a VI Jornada de Estudos Linguísticos do Nordeste. No programa apresentado, o conjunto executou para todos presentes, Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira; Juazeiro, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; Asa Branca, também de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense e Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

A criação do antigo e primeiro conjunto de câmara de Cajazeiras que se tem conhecimento, foi uma iniciativa do Centro de Formação de Professores, através da Coordenadoria de Música do Núcleo de Extensão Cultural – NEC, instituições que na época pertencia a UFPB, e que na década de 90, foram encampadas pela UFCG, Campus-Cajazeiras. 







fonte: Jornal A União/novembro de 1980.

domingo, 9 de outubro de 2016

As memórias de Zé do Norte contadas nesse artigo de 1987, do jornal A União.


Em 1985, se achava Zé do Norte no sertão da Paraíba como homenageado do Festival de Artes da Paraíba, que naquela ocasião a sede era em Cajazeiras - sua terra natal. Muito bem a vontade no miscigenado clima agreste do Brejo da Freiras, o artista recebeu a visita da jornalista Mariana Moreira, para uma converso amistosa sobre sua vida, carreia de escritor e relações com Cajazeiras. Veja como foi esse encontro, publicado no Jornal A União do dia 22 de maio de 1987, página 09, Segundo Caderno. 



Seu nome sofre o ostracismo nocivo dos modismos efêmeros que vagueiam os lances da cultura dominante, reservando planos pálidos para criatividades e talentos. Os estilos padronizados e sincronizados escritos nos evangelhos da Globo não se afinam com seu “arre égua”, conservado como uma das mais nítidas e fortes evidencias de sua origem nordestina e agreste; mesmo com os 50 e tantos anos de vivencia carioca. Esse é Alfredo Ricardo do Nascimento: um nome desconhecido, detentor de uma fértil biografia de soldado do Exército, guarda mata – mosquito, ator, compositor, animador de programas radiofônicos em estilo sertanejo e, acima de tudo, um narrador de sua vida e de sua gente. Como Zé do Norte seu nome está associado ao filme O CANGACEIRO”, de Lima Barreto, a universal MULHER RENDEIRA e a tantos flagrantes de nosso existir cultural.
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Agora, Alfredo Ricardo do Nascimento lança AS MEMÓRIAS DE ZÉ DO NORTE, uma autobiografia feita ao estilo das velhas e amareladas estórias de trancoso contadas na boca de noite penumbra de alpendre nordestinos e com sabor das de cangaceiros e romeiros que povoam tantas lembranças de tantos sertanejos, na malícia de um “paraíba” descobrindo o Rio de Janeiro e a cidade grande.
Escolhido como Patrono do nono Festival de Artes da Paraíba, em 1985, Zé do Norte esteve em Cajazeiras, sua terra natal. No clima agradável e destoante do Brejo das Freiras ele deu esse depoimento a jornalista Mariana Moreira. São flagrantes que Zé do Norte apresenta em suas MEMÓRIAS, e que antecipamos agora.



MEMÓRIAS DE ZÉ DO NORTE
Mariana Moreira


“Eu nasci no Sítio São Francisco. Meu pai foi rendeiro daquela fazenda, que pertencia ao velho Guimarães, avô de Dr. Otacílio Jurema. Eu vivi duas fases: de seca e de inverno. A primeira seca que tomei pelas “fussas” foi a de 1915. Eu era garotinho, não me lembro de tudo, mas guardo o sofrimento, porque no início aconteceu uma epidemia de varíola, que se chamava “bexiga” naquela época. Morria mais gente do que peixe envenenado. Não tinha socorro médico de jeito nenhum. Eu morava em Cajazeiras, na rua do Cemitério. Minha mãe era costureira. Eu era um menino sardento, com cabelo caju. Passou então um velho (piauizeiro) lá em casa e ensinou o remédio contra a bexiga, que era beber uma caneca do esterco da vaca, logo após ela ser ordenhada. Era para aparar o esterco antes dele cair no chão, com urina e tudo, misturar e beber. Eu me escondi, mas mamãe me deu aquela caneca de caldo verde. Só sei que todo mundo que bebeu escapou. Na seca de 1919 veio a gripe espanhola. Morreu gente como o diabo. Nessa época eu morava onde hoje é Santa Helena. Meu padrasto, então, mandava fazer chá de quina (que nós chamávamos de quina-quina) bem forte e dava prá todo mundo. Salvei gente como o diabo”.

Meu Sonho era aprender a ler

“Uma noite de agosto de 1925. Cajazeiras vivia a festa da Padroeira Nossa Senhora da Piedade. Sentado na calçada, ouvindo abanda tocar, disse ao meu primo Zé Bombinha: - Vou embora daqui. Cajazeiras não tem recursos e lá quero estudar. Eu tinha um dinheirinho junto. Comprei a passagem de trem para Fortaleza. Quando ia saindo de Cajazeiras quis desistir e meu primo não deixou, me aconselhando saltar em São João do Rio do Peixe (hoje Antenor Navarro). Não desisti e chegando em Fortaleza fomos dormir no Morro dos Moinhos, pagando 500 réis para armar a rede. Era um lugar de bandidos. Me empreguei no Café Emídio, na Praça do Ferreiro, ganhando 60 mil réis por mês para lavar pratos e fazer café. Depois passei a trabalhar no salão do Café, sempre almoçando num mercadão ali existente, que servia uma gostosa panelada. Comia que só filho de ladrão quando o pai está solto. Nas horas vagas ia pró Passeio Público ouvir a Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Vendo o mar me deu vontade de entrar no “exerço”. O meu primo já tinha sentado praça na Polícia. Certo dia me deparei com um sargento sentado no Passeio Público. O confundi com um Capitão e disse: - Capitão, quero entrar prá o exerço prá ir pró Rio de Janeiro e estudar. Perguntando de onde eu era, o sargento descobriu que também era de Cajazeiras e me levou ao comandante do XXIII Batalhão de Caçadores, onde sentei praça com destino ao Rio. Embarquei no navio Pará, levando 18 dias de viagem, enjoando como todo marinheiro de primeira viagem. No Rio fui servir no Regimento de Infantaria, na Vila Militar. Após um ano dei baixa, entrando na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, como enfermeiro, servindo dois anos. Em 1929 dei baixa para casar. Me enrabichei por uma espanhola que morava no Morro da Mangueira. Não chegue a casar com ela que morreu de apendicite, doença que era quase mortal naquela época”.

“Naquela época todo mundo morria de apendicite. Só que eu escapei. Fui operado em 1928 e, dos 18 operados no mesmo tempo apenas eu sobrevivi. – Eita diabo, vim lá do Sertão sobrevivendo a toda sorte de epidemia e me livrei da apendicite. Na operação, porém, aconteceu um caso engraçado. De manhã cedo, no dia da cirurgia, tomei banho, fui a missa e comunguei. Quando os médicos estavam me operando resolvi pregar uma peça, prendendo a respiração, Ihh... foi um reboliço danado, todo mundo pensando que eu tinha morrido. Depois, bebi a borracha de gelo colocada em cima da operação, vomitei, arrebentou vários pontos, a cirurgia supurou e fui colocado no isolamento, pra morrer. Superei tudo e ainda em 1930 fui operado de uma hérnia; em 1972 me submeti a uma cirurgia de próstata e, em 73, operei a hérnia esquerda estrangulada.  O que me prejudicou mesmo foi uma efizema que apanhei m 1983, por causa do cigarro”.

Mulheres: Gosta de Todas

“Não cheguei a casar com a espanhola, que morreu em 1930. Aí apareceu namorada de todo jeito, mas a enchente mesmo foi quando comecei no Rádio, em 1939. Tinha um paraibano, proprietário da fábrica de cera e óleo Universal, que me patrocinou. Eu ganhei, naquela época, 12 contos de réis, que era dinheiro como diabo. Arre égua... mandei fazer roupa do linho, comprei um sapato da moda, gravata e camisa de seda. Aí começou a encrenca como a minha mulher. Eu tinha casado em 1931 com uma carioca. Tenho nove filhos. Seis da primeira mulher e três da segunda. Atualmente sou desquitado. Tenho também três filhos fora do riscado. São os três homens; o resto é tudo mulher. Os três que são machos, todos tocam e cantam, mas nenhum é profissional. Já tenho bisnetos. Gosto tanto de mulher que namoro até com a lua, a quem prometi casamento na música “Lua Bonita”. Se não fosse esse troço de efizema eu ainda estava inteirinho, pois sempre nadava 500 metros todos os dias, da Praia do Botafogo ao Icaraí. ”

Porta – Voz do seu povo

“Como veio o meu nome Zé o Norte? Ah... isso é importante. Eu sempre fui um leitor de Gustavo Barroso. O João do Norte. Então, quando fui fazer o meu primeiro show, na Rádio Tupy, em 193, os apresentadores (Paulo Gracindo e Manoel Barcelos) perguntaram qual o meu pseudônimo. Então, depressa me inspirei no João do Norte e disse: ZÉ DO NORTE. – Mas, porque Zé do Norte? Perguntaram. – Porque eu sou do Norte e quero defender a música do meu povo. Eram telefonemas perguntando e onde eu era. Se do Ceará, porque eu tinha dito que era a fronteira da Paraíba com o Ceará. Eu disse então que era de Cajazeiras, e ninguém nunca tinha ouvido falar desse lugar. Aqui nessa cidade de Cajazeiras eu trabalhei no Café de João Bichara, pai de Ivan Bichara, ganhando 50 mil réis por mês. Dali fui para o Colégio do Padre Gervásio Coelho, onde fazia o serviço da limpeza em troca e estudo. Aos 16 anos aí para Fortaleza. ”

Crime do Marechal

“A figura popular de Cajazeiras, naquela época, era o Neinha, que colocava apelidos em todo mundo. O BUTIJÃO, por exemplo, era um sujeito muito baixo, forte, o pescoço curto, parecia um holandês; e a mulher ele, alta e magra. Então foram apelidados por Neinha como BUTIJÃO e BORBOLETA. Eles moravam perto da ponte que vai para ao Diocesano e, na época da sangria, os alunos iam tomar banho ali e ficavam gritando. Borboleta, Butijão... e cantando: “jaca é fruta boa/banana não tem caroço/nem borboleta tem dente/nem botijão tem pescoço.” Eita diabo, eles ficavam danados. Eles tinham dois filhos que também tinham apelidos: Borboletinha e Gabiru. Butijão era o zelador do Mercado antigo (que hoje ainda existe). Em 1916 houve um crime lá dentro. O Marechal matou o sargento Henrique, porque este lhe deu um tapa na cara, após ter chamado o Marechal para jogar e este ter dito que não jogava com um policial. Era noite de festa e eu estava olhando o movimento e, na hora do rime, sai na carreira e fui me esconder na casa de Raimunda Lalau.  Dormi lá e, bem cedinho, ela me deu café com tapioca. Acordei de madrugada com Raimundo Doido que vinha cantando no meio da rua: “já tomara/já tomara/já tomara de manhã/eu já”. Ele andava com dois ossos (tíbias) e dizia que era do seu avô, o Velho Tomás, que costumava lhe bater, quando vivo. Marechal não foi a julgamento, tenho passado um tempo no Barro (Ceará), protegido pelo Major Zé Inácio, que era uma espécie de coronel”.

“Depois dessa onda de Rock, de discoteque, as fábricas se interessaram mais por esses estilos, mais comerciais e desprezam a verdadeira música brasileira. Os artistas gravam, mas não vendem. O falecido Jackson do Pandeiro gravava, mas não vendia. O único que ainda vende qualquer coisa é Luiz Gonzaga. Os outros ficam nessa situação. Inclusive eu. Muita gente gravou composições minhas, como o Caetano Veloso, que gravou Sodade, meu bem, sodade, fiz muitas músicas e uma delas, Vou Girar, é um pouco da minha vida. É de uma importância fabulosa, porque é uma espécie de ensinamento que deixo para a juventude. Eu digo: “Menino quem é seu pai/ o meu pai é Nosso Senhor/ Menino quem é sua mãe/ minha mãe e a mãe do Redentor/ menino diga aonde vai/ pelo mundo eu vou girar/ tenho muito que aprender/ tenho muito que ensinar... “. O meu livro O Lobisomm de Cajazeiras está parado; deram uns tiros nele. Na época em Burity era secretário de Educação deu a verba, mas Deusdedith Leitão foi muito moroso e deixou passar. Os originais estão comigo. E tem um outro, A vingança da Negra Ouro, sobre a escravidão."

"Nas Memorias de Zé do Norte eu conto porque Lampião nunca entrou em Cajazeiras. Quem entrou foi Sabino, mas não chegou a dominar a cidade, que naquela época vivia sempre ameaçada por cangaceiros. Em 1923, depois da passagem de Luiz Padre, que roubou a mulher de Osório do Cipó e castrou Justino Neco, em 26 Lampião escreveu uma carta para Joaquim Peba, pedindo 20 contos de Reis. Joaquim Peba não enviou o dinheiro, tampouco Lampião veio buscar. Sabino, que tinha sido cabra de Marcolino Diniz (comerciante em Cajazeiras), conhecia a cidade todinha, como também seus homens importantes. Na época ele era o braço direito de Lampião e, ao retornarem do Rio Grande do Norte, desafiou seu Chefe a invadirem Cajazeiras. Lampião se recusou e disse que se sabino quisesse entrar na cidade, que viesse sozinha. Lampião não entrava em Cajazeiras a pedido do Padre Cícero do Juazeiro, que lhe deu a patente de capitão e que tinha sido aluno do Padre Rolim, nessa cidade, e que pediu a ele (Lampião) para nunca atacar Cajazeiras. Sabino cismou e entrou pela rua da Matança tocando fogo de imediato, na casa de Martim Barbosa. Depois encontrou um soldado que vinha com uma cabra, pertencente a uma velhinha e que ele trazia como pagamento de imposto. Ao encontrar-se com o soldado, e também com a velhinha em prantos, sabino matou o policial com a arma dele (soldado) e devolveu o animal a velhinha, que saiu bendizendo: “Deus dê a salvação a Sabino”. Essa cena serviu de base para algumas tomadas do filme O CANGACEIRO. Ainda na rua da Matança, Sabino matou o popular Ciço Pé-de-Cágado, que tinha esse apelido porque tinha os pés de pomba. Os cangaceiros vieram correndo até a casa Matos, na Praça da Igreja Coração de Jesus. O tenente Elísio, delegado da cidade, só de pijama e cartucheira, da torre da Igreja atirava nos cangaceiros, conseguindo ferir dois, que os companheiros levaram. Fugindo a reação os cangaceiros saíram pela rua da Tamarina e foram para a casa do major Sobreira, atacando dois empregados que faziam a proteção. Depois foram para a usina de descaroçar algodão, onde Sabino ateou fogo. O povo de Cajazeiras reagiu espetacularmente, pois a cidade só contava com seis policiais e o tenente. A reação foi grande e até a usina de luz ajudou, porque ao disparar os cangaceiros pensavam que era um fuzil. Por volta da meia noite os cangaceiros foram embora e, oito dias depois, encontraram em Marias Pretas, perto do Patamuté, dois cadáveres enterrados, dos cabras de Sabino”.

“O folclorista Flávio de Andrade escreveu diversos livros e um deles, aborda a questão da mulher rendeira, que ele colheu no litoral da Bahia. Por ser uma tradição proveniente do espanhol ele botou olé. Depois viu que aqui não se cantava olé; ora olé, “Olé mulher rendeira/ olé mulher renda/ chorando por mim não fica/ soluçou vai no borná”. O arranjo que eu fiz, “olê mulher rendeira/ olê mulher renda/ tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino namorar”, foi registrado no estrangeiro e em toda parte e é a que está prevalecendo. Eu tinha um jumentinho, chamado Macaco, e eu vendia água na rua na época em que Sabino entrou em Cajazeiras."

A verdadeira mulher rendeira

"A carga d’água com quatros latas era vendida por 300 réis. Eu protestei contra o trecho da Mulher Rendeira. Eu disse: - um dia o povo de Cajazeiras vai protestar contra isso porque Lampião nunca entrou na cidade. Essa estrofe saiu depois, no filme. O cara fez o arranjo botou esse negócio. É uma distorção. No original não tem isso. Eles fizeram sacanagem com o registro de Mulher Rendeira. Eu vim pró Rio de Janeiro e lá em São Paulo o Lima Barreto registrou a música como de domínio público, mas o empresário registrou no exterior como minha, e a Editora Bandeirantes registrou no Conservatório Nacional de Música, prevalecendo meu arranjo. Do estrangeiro quem me paga mais direito autoral é a Alemanha, depois a França e o Japão. Eles são doidos por Mulher Rendeira, que chama de Cangaceiro, mas gostam também da música Meu Pião.”

Dificuldades da Memória

“Foi muito difícil publicar As Memórias de Zé do Norte. Eu assinei contrato com a José Olímpio Editora, mas a percentagem era muito pobre, 10 por cento. Não assinei o contrato e disse: - se é para fazer cultura, eu faço, mas não dou lucro a ninguém. Nesse interim, morre o José Olímpio e a editora foi vendida. Os novos proprietários botaram uma série de dificuldades e eu fugi da linha. Fiz então um contrato com a Editora Continente, onde paguei 10 milhões pela edição de mil livros. Eu podia ter o prefácio de Raquel de Queiroz ou de outro nome famoso da nossa literatura, mas não quis isso, achei que seria uma apelação para o livro vender. Então botei um que não é conhecido, mas é fabuloso, o Paulo Armando. No Livro conto coisas de Cajazeiras, coisas de Lampião e de cangaceiros, como também meus passos pelo Rio de Janeiro. ”

“O Jorge Amado eu considero um crânio, mas gosto também de José Lins do Rego e de alguns escritores estrangeiros. Eu hoje vivo dos rendimentos dos direitos autorais de minhas músicas executadas no Brasil e no exterior e de uma aposentadoria do INPS, como cantor e compositor. As melhores recordações que guardo são dos tempos que era guarda mata-mosquito. Tem uma passagem gozada, que conto n´Às Memórias do Zé do Norte, que é do homem que não gostava do mata-mosquito. Era o marechal Setembrino de Carvalho. Eu fui lá e constatei um foco de mosquito em sua casa e perguntei a empregada pelo patrão (eu lá sabia quem era). Ele vinha descendo as escadas e disse: - O que você quer com o patrão? Respondi: - Meu patrão, encontrei um foco de mosquitos em seu quintal e vou levar para a repartição. Ele reagiu, ameaçou chamar a polícia, mas eu fui embora com os mosquitos. Deu um reboliço danado, com o conhecimento do diretor de Saúde Pública, Clementino Fraga, e foi parar no Ministério da Guerra. ”  

“Gastei dinheiro e não sou vereador”

“Não gosto de política. Fui candidato a vereador, no Rio de Janeiro, em 1950, pelo PST (Partido Social Trabalhista), só tirei trezentos e poucos votos, porque estava rompido com o Lutero Vargas, com quem fiz a campanha do queremismo, e também porque me registrei no Tribunal Eleitoral como Alfredo Ricardo do Nascimento e todo mundo só me conhecia como Zé do Norte. Rompi com Lutero Vargas porque ele, como médico, se recusou a ir receitar a mulher de um operador da Rádio Tamoio, onde eu trabalhava na época. Como o Tribunal não aceitava a inscrição do pseudônimo dos candidatos, aí eu vi que ia perder e levei o negócio na brincadeira. Na apuração, já me sentindo derrotado, entrei no Tribunal todo de branco, fumando um charuto e cantando: “Aí doutor, aí doutor/ gastei meu dinheiro todo/ e não sou vereador”. Muita gente me xingou. Hoje, não acredito nessa confusão que tá aí. Uma tribuzana; três encrencas: a abertura, que foi uma negação; a morte do Tancredo Neves e, o José Sarney, porque não vai resolver nada e vai fazer coisa que não devia fazer, nomeando parentes, nomeando uma porção de ladrões. Figueiredo deixou ladrões e ele vai ser pior. A situação econômica do Nordeste, que devia ser resolvida primeiro, não resolve. O Nordeste hoje tá uma beleza, mas deve-se aos governos da Revolução. Mas agora, com essa promessa do Sarney de salvar a situação da região, de dá privilégios ao Nordeste, vamos ver se dar sorte. Se fizer e der certo eu digo: valeu”.




Ilustração: Deodato Borges

sábado, 1 de outubro de 2016

Uma homenagem fotográfica a memória do Grupo de Teatro Terra de Cajazeiras


Foto 1. Analice de Lira - Aninha (hoje, Anna D`Lira) em "Até Amanhã", Texto e Direção de Eliezer Rolim. 
Foto 2. Lincoln (Irmão de Eliezer Rolim) em "Os Pirralhos". 
Foto 3. Sôia Lira em "Os Pirralhos", peça dirigida por Luiz Carlos Vasconcelos, em 1978. 
Foto 4. Marcélia Cartaxo, Eliezer Rolim e Nanego Lira, década de 80, provavelmente em um ensaio de "O Barraco" ou "Beiço de Estrada". 
Foto 5. Nanego Lira, Salvinho, Wilma, (?) Eliezer Rolim e Lincoln. Paula, (?), (?), Doda, (?), Zefa Ralem, Marcélia Cartaxo e Ronaldo (Buda) Lira, no Rio Guaíba, Porto Alegra, durante a turnê do Projeto Mambembão de Artes Cênicas. 
Foto 6. (?) Everaldo Vasconcelos, Doda (?), (?), Eliezer Rolim, Wilma, (?), (?), (?) Salvinho, Marcélia Cartaxo, (?) Sales, (?), Paula, Lincoln, Nanego Lira e Sôia Lira, durante a viagem com destino ao Festival Brasileiro de Teatro Amador de São Carlos/SP. 
Foto 7. Nanego Lira, Toca e Teinha (de Pombal), em "Os Pirralhos" (Cena da banheira).
Foto 8. Nanego Lira (meiota) e Marcélia Cartaxo (véu de noiva) em "Beiço de Estrada". Texto e Direção de Eliezer Filho
Foto 9. Nanego Lira e Sôia Lira em "Os Pirralhos". 

Foto 10. Marcélia Cartaxo (véu de noiva), Lincoln Rolim e Paula em "Beiço de Estrada". Texto e Direção de Eliezer Filho.
Foto 11. Lincoln Rolim, Wilma e Analice de Lira - Aninha (hoje, Anna D`Lira), em "Até Amanhã", Texto e Direção de Eliezer Rolim.