sábado, 22 de outubro de 2016

A Arte Muralista na ótica do Projeto "Pintar Cajazeiras"

Cleudimar Ferreira


Gloriosa victoria. Diego Rivera, 1954. Témpera sobre lienzo. 2,6 x 4,5 m.

A pintura em mural ou muralismo é um procedimento antigo na arte universal. Suas primeiras produções são remotas, vieram do período da pré-histórica com as primeiras pinturas de homens-caçadores perseguindo bisões e outros animais, ou cenas do cotidiano em que viviam, feitas em tamanho real no interior das paredes das cavernas. 

Depois, muito mais adiante, no arcaico mundo Grego, teve o seu uso intensificado se espalhando por todo império romano e no antigo período bizantino. No transcorrer da era clássica, os trabalhos de Giotto deram extraordinário impulso a esse tipo de pintura. Durante o Renascimento, foram criadas algumas obras-primas em murais, como os conhecidos afrescos da capela Sistina, executados por Michelangelo, e a belíssima pintura "Última ceia", produzida por Leonardo da Vinci.

Com o passar do tempo, sua produção foi se tornando uma atividade popular na arte, ressurgindo com todo vigor no século XX, em três momentos: um gênero mais expressionista e abstrato, protagonizado em Paris por grupos cubistas e fauvistas, que influenciou nos trabalhos de Picasso, Matisse, Léger, Juan Miró e Chagall. Sequenciou com movimento revolucionário mexicano, dos muralista Diego Rivera, David Siqueiros e Clemente Orozco e em um curto momento nos Estados Unidos no incio dos nos 30.

No Brasil, a ideia de ocupar espaços urbanos com murais ou mesmo tornar ambientes arquitetônicos harmoniosos com a introdução dessa arte, apareceu com bem mais tenuidade, depois dos anos 50 com a construção de Brasília. Na Paraíba, artistas como Flávio Tavares, Euclides Leal e Arthur Cantalice, experimentaram nas décadas de 60 e 70 essa técnica, deixando seus murais em espaços públicos e clínicas médicas.

No final da década de 80 e início dos anos 90, um grupo de artistas plásticos de João Pessoa, patrocinados pelo Sesc, urbanizaram avenidas e ruas da capital com imensos murais coloridos, com temáticas e estilos diferenciados. Começava assim a popularização da pintura de rua no Estado da Paraíba.

Em Cajazeiras, ainda não há com consistência, registros passados do uso dessa técnica; a não ser, esporádicos resquícios executados em paredes de algumas igrejas, muitos desaparecidos ou desgastados pela má conservação ou ação do tempo, obviamente, relacionados a temática cristã, direcionados, portanto, a educação religiosa.

A pintura de muro propriamente dita, surgiu na cidade a partir da imaginação da Artista Plástica Telma Cartaxo, que como um sonho visionário de quem dormia fazendo da arte, usou seu travesseiro preferido que lhes acolhia com seus pensamentos e devaneios, para transformar essa viagem num antiquado projeto denominada de "Pintar Cajazeiras" . Tanto é, que tardiamente, seu sonho só veio ser concretizado em 1987, quando a técnica já tinha se tornado uma febre enfadonha nos grandes centros urbanos e a sua força já não atraia tanto a atenção do público em geral.

Embora, segundo afirmou a própria Telma Cartaxo na época em que foram realizados os primeiros murais do projeto na cidade: "foram nove anos de uma ideia adormecida", ideia cuja relevância no momento em que foi colocada em prática já não empolgava mais, mas para uma Cajazeiras tão distante geograficamente das novas tendências da arte, teve um significado importante, pois impactou os olhos de sua gente e regozijou a autoestima de seus artistas envolvidos, muitos ainda apartados de um entendimento primário da técnica do mural, uma atividade urbana característica das metrópoles do mundo moderno, que não mais tinha tanta graça assim, cujo grafite hoje é o substituto; a evidência e a realidade das ruas.

Veja abaixo o texto "O difícil parto da arte na rua", de autoria da jornalista Mariana Moreira, publicado no Jornal A União, página 11 - estadual, do dia 09 de setembro de 1987, onde ela relata em uma espécie de crônica, como foram os primeiros momentos da execução do projeto nas ruas de Cajazeiras.     




O difícil parto da arte na rua
Reportagem: Mariana Moreira     
Fotos: Jose Almir

Os muros sujos e polidos pela propaganda eleitoral e comercial abrem alas para a arte. Os artistas saem as ruas e, trazendo no arsenal a munição de pincéis, tintas, solventes e criatividade, forjam uma guerra contra o inimigo insensibilidade e marasmo. É o projeto “Pintar Cajazeiras”, concebido há nove anos por Telma Cartaxo e Íracles Pires, e que agora vem a luz deixando em cada esquina painéis gigantes que motivam participação arte-povo. O apoio é minguado, mas a alma do artista transborda de esperança e leva para o povo sua criação.


De repente a paisagem da cidade transfigura-se. Nos muros povoados por cartazes de velhas-recentes e ilusórias campanhas eleitorais a mão do artista manuseia o pincel e traça novos riscos, metamorfoseando gigantescos painéis que quebram o clima cinza e melancólico da modorrenta rotina cajazeirense. Da concepção individual ou coletiva vão surgindo traços geométricos, motivos tropicais ou visões abstracionistas como artista – como membro do povo.

O projeto “Pintar Cajazeiras”, gestado há nove anos na lucidez de Íracles e Telma Cartaxo, somente agora ensina seus primeiros passos, acalantados pela longa espera que pontilha a alma do artista de cansaços tantos e esperanças mais. “Pouco me importa que tenha ou não infraestrutura porque o que conta é que ele chegou num momento bonito, onde a emoção de pintar Cajazeiras e bem maior que o tempo de espera e a dor de partir”, evangeliza Telma Cartaxo.

Dessa forma, pelas ruas de Cajazeiras, no passar das horas que se agrupam em dias, muros são transformados em painéis, pintados sob a proteção de Deus Sol e como o testemunho da população – boquiaberta ante a iniciativa da arte saindo da clausura dos ateliês e ganhando cor, forma e vida em cada beco, em cada esquina. E a receptividade que o projeto vem recebendo da comunidade evidencia a verdade de que ele, agora, tornou-se o filho bem-vindo de toda a cidade. “E se faltar tintas, pincéis, solvente, verniz deixo a coisa correr. De repente, todo mundo contribui, se envolve e embala meu sonho”, profetiza Telma Cartaxo, reconhecendo que “o mundo da arte é um mundo fantástico, onde formas e cores fazem a humanidade mais linda e mais consciente”.

A consciência que precisa ser mais atiçada e melhor aguçada para que os pincéis não pereçam na velocidade da destruição gerada pela ignorância do seu significado. Não apenas Telma, mas todos os artistas engajados no projeto comungam do receio de que a arte que ganhou as ruas seja por elas consumida indevidamente e a todos acometa da indigestão imbecil do não entendimento. O temor de que amanhã os muros sejam desconexos espaços de publicidade eleitoral enganosa, disputados acirradamente, mas que não refletem, não questionam... apenas torna subserviente a consciência humana.

O projeto “Pintar Cajazeiras” já pariu sete painéis que espelham a visão individual de quem maneja o pincel e os condicionamentos que o artista sofre no dia-a-dia. O Painel do Olho é o mais significativo resultado do projeto porque traz a marca do traço infantil. Foram crianças do centro e da periferia da cidade que, a partir da perspectiva pessoal da função política do olho delinearam seu próprio universo.

A visão política que levou Ionas, Ivonaldo, Ednaldo, Sandro e Cristiano a deixar nas paredes da Juvêncio Carneiro as pinceladas dos “Emergenciados e Marajás”. Das crianças que pretendem invadir o Teatro ICA e fazer de suas paredes o espelho de sua alma, tingindo de vida os sonhos de Íracles. Eles todos, aliados a João Braz, Iwallone, Neide, Ricarte, Aldacira, Telma Rolim, Andréa e outros que estão se agregando a caravana da cor prometem transformar Cajazeiras numa galeria pública, onde a arte seja o ângulo de todas as esquinas, envolvendo na cidade o rastro de trinta painéis.

O Projeto “Pintar Cajazeiras” está nas ruas. Após uma gestação de nove anos ele nasce a revelia dos precários recursos e dos minguados apoios e estímulos. Sob a coordenação da artista plástica Telma Cartaxo, através do Atelier Cajazeirense de Artes Plásticas, ele tem o apoio do V Campus da Universidade Federal da Paraíba, da Prefeitura Municipal de Cajazeiras, da Associação Universitária de Cajazeiras e da comunidade. No entanto, são frágeis réstias que penetram pelas frestas da porta entreaberta, que precisa ser escancarada para que o filho recém-nascido receba a força vitalizadora do sol e não morra da inanição transmitida pelo vírus da insensibilidade.  




Reportagem publicada no Jornal A União, dia 09/Set., de 1987, pág. 11 - Estadual

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