domingo, 20 de novembro de 2016

O perfil do Biógrafo do Padre Rolim, nesse texto do jornalista Luiz Pinto, publicado pelo jornal A União, em 1970.


Padre Heliodoro Pires
Luiz Pinto

Já o conheci pessoalmente o velho intelectualmente, puis-me em contato com ele, há mais de 40 anos, através do seu pequeno-grande livro - “Padre Mestre Rolim”. Esse trabalho pouco lido e totalmente esgotado, pode ser tido como dos melhores estudos já lançados no Nordeste, não apenas de caráter biográfico. Senão pela feição de multiplicidade de aspectos. Era um grande latinista, vernaculista e um primoroso estilista. Vim conhecê-lo no Rio. Demonstrou já conhecer alguns dos meus livros. Era pároco da Igreja São João Batista de Botafogo.
Aqui, no Sul, escreveu vários livros sérios de grande erudição, destacando se um sobre o Aleijadinho e sua obra, “livro que elevou seu nível cultural nos meios intelectuais do Brasil.
Sempre o vi na rua S. José, nos Sebos ou na Sobreloja do Edifício Avenida Central, na mesma faina de comprar livros usados. Corcunda, pelo peso dos anos, Heliodoro, era magro e de altura média. Falava brando, mas com muita fluência, muita loquacidade. Conhecia homens e coisas da Paraíba como se lá vivesse. E a agudeza do seu espirito critico era quase impiedoso, Latinista, conhecendo bem as raízes e gêneses dos vocábulos, a propriedade do emprego, falar com ele era ter cuidado de escorregar nos solecismos.
Eu, porém, consegui fazer grandes camaradagem com o Padre Heliodoro. Então, ao encontrá-lo, o que era constante, procurava provoca-lo sobre os problemas da Eucaristia e o Celibato dos padres. Ele levava a brincadeira a sério e desmanchava-me em sabedoria. Pedi-lhe um exemplar do seu livro esgotado “Padre Metre Rolim”. Prometeu-me várias vezes, mas nunca me deu.
Filho de Cajazeiras, de tradicional família sertaneja, o grande mundo nunca o fez esquecer seu pequeno mundo. Parecia um pároco de aldeia.
Uma dessas manhã, quando abro o primeiro jornal dos que leio logo cedo, depara-se já o convite à Missa. Confesso que me abalei na minha cadeira de leitura. Fechei os olhos por um minuto pedindo a Deus o repouso eterno a alma daquele bondoso velhinho, daquele justo homem daquele culto e sensível nordestino.
Padre Heliodoro Pires, que fazia questão de viver anônimo, era um dos maiores valores culturais do Brasil e um santo padre.





fonte: Jornal A União, 09/04/1970. Página 4.

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