sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Como receberão a volta do Teatro Ica!

Cleudimar Ferreira 


Depois de uma extensiva e exaustiva reforma necessária, de caráter reconstrutiva, polemizadas por arremessos e arrebates. De um lado, os pros; por outro, os contras; eis que surge rompendo o calendário da espera enfadonha de atores e atrizes, a tão esperada entrega do Teatro Íracles Brocos Pires - Teatro Ica, marcada sem adiamento ou prorrogação de data, para a primeira semana do mês de março - provavelmente no dia 8.

Com certeza, a sua inauguração vai ser um marco para a sociedade teatral de Cajazeiras e vai marcar na história da principal casa de cultura da cidade, como mais uma etapa funcional a ser cumprida no tempo. Nesse transcurso, é bom lembrar que o ano de 1985 aportou, como ano em que o sonho da classe teatral cajazeirense se materializou, com a construção do referido teatro, pelo então, na época, governador Wilson Braga.

Naquela oportunidade, curiosos olhares da arte e ansiosos dirigentes teatrais da cidade, arrebatados pela magia da concretização do sonho antigo, fizeram da inauguração do teatro uma festa regada a Trupizupe, Theatrai e Theatron; apimentada por um pretensioso discurso político, que mascarou ideologicamente a face do ator – na época, Lúcio Sergio de Oliveira Vilar, que na condição de representante da categoria, leu o manifesto de boas-vindas do Ica a terra da cultura.

Agora, 33 anos depois, os personagens dessa nova vida do referido teatro, não vieram do pretérito e não representam mais o passado. No momento, são outros os atores e dirigentes em cena e o governador, não é mais o senhor Wilson Braga, mas sim, Ricardo Vieira Coutinho, que sensível a demanda que tem revelado a produção cultural da cidade, principalmente na sua parte mais emblemática, a dramaturgia, refez o percurso da história do Teatro Ica, realizando uma reconstrução por mais merecida e uma ampliação da área da casa de espetáculo, anexando a mesma, salas para atividade de dança, ensaios e outras atividades fins, inerentes a todo teatro que se preza.   

Se para tal iniciativa, a demanda dos serviços atropelou o tempo, esticando a sua finalização em um curso de quase 5 anos; o estado estético e funcional em que ficou o teatro, apagará da memória dos cajazeirenses e cajazeirados, as arestas que causaram frisson entre os que defendiam e os que não defendia a sua reforma. Resta saber se depois desse mar revolto, a calmaria a seguir, será suficiente para unirá a classe, já que pela estrutura física que ficou o teatro, haverá espaços para todos, independentemente ou não de posicionamento político; que tipo de atividade teatral faz; ou se concorda ao não com a nova roupagem dada pelo Governo do Estado a principal casa de espetáculos teatrais do sertão paraibano.

Resta esperar para ver que discurso os dirigentes da nova classe teatral de Cajazeiras farão no dia da sua inauguração. Como isso é uma incógnita, não vem previamente estabelecido. Como bem expressou o texto lido por Lúcio Vilar, na tarde de 26 fevereiro de 1985, resta-nos meditar um pouco sobre qual a função de representar sentimentos, ou como sentirão os atuais dirigentes da nova ordem teatral da terra da cultura, frente ao moderno templo das artes cênicas que receberão, e qual importância o Ica representará para todos, após a sua entrega. Vamos esperar!


Abaixo, o texto lido por Lúcio Vilar na primeira inauguração do Teatro Ica em 26 de janeiro de 1985.

Teatro, vida, luta e arte (*)

O dia permanece cloro, apesar da noite que se faz longa. Nosso sonho não é de agora. Porém temos a felicidade de ver renovado em cada grupo que surge, em cada espetáculo encanado mesmo com as dificuldades da técnica do dia-a-dia descoberta. Um novo refletor, o sol a pino, a lua em clarão, mambembe, marginal até. Nosso sonho não termina nunca. Somos velhos meninos nascidos em cada cena, em cada ato, grafado em cada espetáculo, palco, tablado, da rua, de volta ao teatro, de volta à cidade, para disseminar o ato de ver, de fazer teatro.

O que podemos esperar de um acontecimento solene, formal como esse, onde povo, governo e artistas, nos encontramos aqui, frente a um mesmo cenário-comício, de um mesmo texto-contexto que requer ao povo (que somos), reaver nosso direito de voz e liberdade de expressão. E o Brasil muito que necessita disso, que requer, de parte do Governo, reaver seus credos-créditos políticos, pela certeza do dever cumprido. Aqui, perante ao grande número de atores, autores, técnicos de espetáculos, produtores de teatro e iluminadores paraibanos da arte em geral, que pena, poucos reconhecidos.

Resta-nos meditar um pouco sobre qual a função de representar sentimentos, anseios ou direitos a felicidade plena do homem, onde nascemos?
Quando esta arte, a arte de um Sófocles, de um Shakespeare, de um Gil Vicente: de um Martins Pena. Arte também de um Paulo Pontes, em vida comprometido, como nos encontramos agora nesse ensaio de dramaturgia. O que temos a fazer, os artistas? Frente as dificuldades que medrem essa gente conflitante, - como povo que somos, - ao mesmo tempo representados em tribuna-palanques, cenário da classe política. E nesses tempos modernos já não há razão, nem caberia mais, nenhum atrelamento do artista ao poder.

Falamos de um quarto poder: o da imprensa. E são vários os “podres poderes” como o mano Caetano nos evangeliza. Daqueles que não tem poder em essência. Não seria outra a função atual do “poder da arte”, questionar tais ditirambos. Confrontamos, povo e governo, e não mais agora, jamais, sob o ponte de vista de bobos da corte, nem de poetas palacianos, como é ainda possível encontrar nesse Estado-País aos montes. Foi-nos difícil, e bem verdade, reconhecermo-nos nessa trajetória não como artistas formados em academias reais, mas como superdotados, mas das vezes censo comum? Alto lá, autodidatas nesse dia-a-dia, e para rompermos o terceiro milênio, falta pouco, muito pouco mesmo. Logo mais, daqui a 15 anos, estaremos alcançando nosso futuro de hoje, e mesmo dia de ontem, que tanto diz respeito a nossa geração é filha de uma consciência aquariana.

Nascemos no Sertão. Aqui reivindicamos nosso direito a vida nesse chão condizente com nós mesmos, sem jamais esquecermos dos céus - meridianos que gritava sobre nossas cabeças. Não pretendemos aqui elaborar linguagens de laboratórios sociais. Gostaríamos, que sempre possível, abrimos a comporta do tempo, tornando-nos verbos, e não vermes, dizendo quem verdadeiramente somos, afinal. E podermos, por fim, disputar, de igual para igual a fraterna alegria entre os homens aqui nesta terra.

Somos operários do lazer. Enquanto o público se diverte nós trabalhamos. Enquanto este trabalha voltamos ao oficio de ensinar a arte em prol da vida, que aos quatros cantos nos encontramos, preparando sempre para um dia seguinte. O sol há de brilhar ou obscurecer para sempre, onde seremos, todos, cegos ou guias-vias dessa longa estrada. Para onde vamos!

Paremos um pouco. “A estrada é estreita e longa”. Depois de Íracles o forte de Santa Catarina, Cabedelo será o próximo forte, endosso dessa mesma categoria que lá aguarda amor e abrigo. Mais escolas de arte de 1 e 2º graus, com teatro permanente, no que é possível. Inclusivo, obtermos fusão do Curso de Comunicação Social e Licenciatura de Educação Artística, do Departamento de Artes e Comunicação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFPB, onde, por incrível que pareça, cobramos, agora, e não sonhamos, com esse delírio de entendermos teatro, e porque não? - Também a nível de 3º graus. Estudos, desejos e debates se conjugam nesse sentido, por entendermos teatro como um processo dinâmico que se desencadeia da rua para o palco, do palco para a aldeia.

Resta-nos, para tanto, melhores tratamentos, isto em termos de autonomia financeira, para com os destinos do que é/o que é arte/educação/cultura. De dentro para fora e de fora para dentro da comunidade. Restamos sermos ouvidos e atendidos enquanto entidades civis.  

Cada “Tijolo com tijolo” do desenho lógico da arquitetura do todo-nosso e aconchegante Teatro Íracles Pires; aqui também presente Marcélia Cartaxo; João Bosco; Antônio Carlos Vilar; Geraldo Ludgero; Roberto Lira; Tarcísio Siqueira; Joaquim Alencar; Gutemberg Cardoso...

Em cada tijolo com tijolo do desenho lógico da conquista do nosso Teatro Íracles Pires. Nele/Nela está implícito todo isso.

A reconstrução do Teatro Íracles Pires custou ao Governo do Estado, cerca de 5 milhões. “Não economizamos! Nós utilizamos os melhores materiais no Teatro Íracles Pires”, disse Ricardo Coutinho. O teatro será entregue como a mesma estrutura técnica, ou seja, cadeiras, cortinarias, equipamento de som e iluminação, utilizada na construção do Teatro Pedra do Reino e nas reformas dos teatros Santa Roza e Paulo Pontes. 

IMAGENS QUE REVELAM COMO FOI TRAÇADA A HISTÓRIA DO "ICA".

Primeira construção em 1985


Demolição e  inicio da reconstrução em 2014



Como ficou o teatro em 2018







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